quarta-feira, 30 de junho de 2010

Patudo

Patudo era o xodó de tio Almir, irmão da minha mãe. Era um potro heterodoxo; bom de montaria, um trote macio, mas também era um cavalo de tração. Puxava uma zorra cheia de cachos de banana – claro que morro abaixo – e não negava tempo ruim na carroça. A sua parelha tinha que ouvir um estalo de chicote para não deixar o Patudo puxar sozinho a carroça.

Tio Almir era o meu padrinho de crisma. Era ele que me levava e trazia do sítio do meu avô. Algumas vezes de bicicleta, outras vezes de carroça, mas o bom mesmo era montado no Patudo.

Patudo e a bicicleta não eram comuns. A sela era das melhores, compradas nas melhores selarias de Curitiba. Os pelegos de coro de carneiro, coloridos, os arreios com enfeites prateados, o culote e as perneiras tornavam o centro de atração das gurias por onde ele passava.

Patudo me fazia sonhar com uma montaria, um belo pelego, um poncho e um chapéu de aba larga. Meu pai tinha culpa no cartório, principalmente quando falava de eguinha de nonno, campeã da raias e de trote macio quando puxava a charrete. Era ela que nonno colocava na charrete para levar mamãe para as suas aulas na escola e foi ela que trouxe Dona Margarida, a parteira, quando nasci. “Porco Dio, guardar o cavalo onde, no seu quarto?” foi a resposta que recebi. Mas ganhei uma bicicleta. Foi a minha montaria. Levei um susto quando ele me mostrou a bicicleta na carroceria do caminhão, ao chegar de Curitiba.

A heterodoxia de Patudo provocava algumas surpresas. Claro que os meus tios Almir e Rubico  (Rubens) já conheciam as manias dele, mas muitas vezes fugia do controle. “Chegou a carroça dos Serôas...” comentava-se quando chegavam na cidade, tantas foram as vezes que a carroça disparou pela cidade. Na verdade era Patudo que iniciava a disparada. Era a segunda maior distração em Morretes. A primeira era quando fugia bois na cidade.

Era um misto de alegria (movimentava a cidade) e pavor (dois cavalos em disparada e descontrolados, puxando uma carroça com aros de metal sobre os paralepípedos que recentemente haviam caçado as ruas de Morretes). A alegria era a movimentação, um "diferente comum", como era o caso dos bois que fugiam.

Até que um dia fui passageiro da carroça em disparada.

Meu avô e meus tios resolveram fazer carvão. O sítio, no Pitinga, era rico em matéria-prima e o dinheiro do carvão financiava a abertura das roças de banana.

O meu avô era engenhoso; leu revistas, livros e não sei mais o quê, e descobriu projetos de forno de carvão. Naquele tempo não havia Internet e muito menos o Google. Nem TV. O primeiro rádio que chegou ao Pitinga foi montado por tio Almir, tarefa de um curso feito por correspondência pela National School. Muito chique! Era uma escola por correspondência na Califórnia, EUA. O curso era em português.

Como não havia luz no sítio, ele ia soldar em casa, na cidade. Mas a luz, fornecida pelo engenho da cachaça do Central era tão fraca que precisava ser auxiliada por um lampião. Não esquentava o ferro. Meu pai arrumou um maçarico e um ferro de solda pequeno que era utilizado para soldar radiador de carro.

Com a orientação de papai, vovô montou um dínamo (como se chamavam os alernadores dos carros) para carregar a bateria para alimentar o rádio. Toda esta peripécia permitia que a minha avó e o meu avô acompanhassem as aventuras e desventuras de Albetinho Limonta, Mãe Dolores, etc., da novela O Direito de Nascer pela rádio Nacional do Rio de Janeiro.

Bem, depois de estudar  projetos de fornos de carvão, vovô desenhou o seu e chamou Zebedeu,  o Bedeu, casado com Maria da Luz. Bedeu era lavrador, pedreiro e carpinteiro. Construía casas de madeira e de tijolos.

O forno era redondo e tinha uns 15 metros de diâmetro. Uma fornada fornecia cerca de 100 sacas de carvão e demora uns 15 dias para ficar pronto. Era um carvão muito bom e havia uma boa freguesia. Seu Lourencinho, dono de uma ferraria, era um deles.

Meus tios não gostavam que eu andasse com eles quando traziam carvão porque a poeira sujava muito. Para se ter uma idéia, em 1942 o meu pai foi buscar dois caminhões no Rio de Janeiro. Era época da guerra e a gasolina era racionada e os carros eram movidos a gasogênio. A viagem Morretes - Rio de Janeiro – Morretes demorou uns três meses. Ele contava que na volta hospedou-se num hotel em São Paulo. Tomou um banho e saiu com o outro motorista para fazer uma refeição. Ao retornar o porteiro não queria dar as chaves dos quartos, pois ali estavam hospedados “dois senhores de cor”. Não, eram eles antes de tomar banho.

Eu fui com eles no seu Lourencinho, pois era avô de Valdinho, meu amigo de infância. Era hora do almoço. Entregue o carvão subi na carroça com os meus tios e saíram em direção de casa para almoçar. Patudo assustou-se com alguma coisa  - certa vez disseram-me aos meus tios que ele poderia ser vidente e era assustado por algum espírito – e começou  a correr.

Na pracinha do paredão virou à esquerda, passou defronte a telefônica e na esquina da Farmácia do Roberto França entrou na rua XV quase em duas rodas. Os dois cavalos bem ferrados e o aro de metal das rodas da carroça faziam um estardalhaço nos paralepípedos da rua XV. Tio Almir, agarrado nas rédeas gritando Óóóóóó, pára Patudo!!!... E Patudo mais corria. E o pessoal nas calçadas gritava “cuidado que é a carroça do Serôas que voltou a disparar!” Seguiu toda a rua XV. Na esquina do Seu Salomão  viu à direita e na esquina seguinte, defronte a casa do Bôrtolo virou à direita e pegou a rua da Prefeitura, virou na rua das Oficinas, voltou a entrar na rua XV,  passou pela pracinha do paredão e novamente pela ferraria do seu Lourencinho, costeou o rio, entrou na rua do hotel, defronte à Igreja Matriz, passou por trás do grupo, pela rua do Centro Espírita e os cavalos já estavam suando. Tio Almir rouco de tanto gritar e tio Rubico ficou no meio do caminho. E a cidade em polvorosa. Fazia tempo que não fugia boi na descarga do vagão de gado no início da reta do Porto.

O espetáculo era como a correria das velhas diligências e carroções dos seriados do Velho Oeste, que passavam no cinema do Nhozinho.

Minha mãe viu tio Rubico, todo sujo de carvão, perguntou por mim.
- Está com o Mimo (apelido de tio Almir) na carroça!
- Ele está bem, não está machucado?
- Não sei, acho que não. Nem sei onde estão...

Quando a carroça começou a correr eu caí no assoalho dela, misturado com o resto de carvão, e não conseguia levantar com os saltos que a carroça dava. Quando os cavalos acalmaram pude sentar no banco, ao lado de tio Almir e voltar para casa.

Além da sujeira pedi um pé da “loirinha” (uma sandália de sola de pneu, lançada por Aramis Zanardi e difundida pelo Ewaldo Zilli). E por uma semana saía carvão dos meus ouvidos e das minhas narinas.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Tentando a recomeçar a escrever

Não sei se é preguiça ou falta de tempo. Ou muito trabalho. Pressão alta e remédios para entrar nos conformes; glicemia alta e remédios para entrar nos conformes. Tirar um pedaço e colocar um enxerto para ver se dará bons frutos.

E parar de trabalhar é como cabeça d’água no Nhundiaquara: se não caprichar no varejão, o bote descerá às cambalhotas.

Em 2009 a família perdeu Luciana. Que perda! A perda foi muito maior que a perda da família; também foi uma perda para o teatro do Paraná.

Também perdi Odith. Minha amiga de infância e minha fonte de informações sobre Morretes e a sua gente.
E, além disto, o Multiply não aceita os meus caracteres acentuados. Mas se der um clique no título irá à página e lerá o artigo direitinho, como foi escrito.
Quem quiser palpitar para me ajudar dê uma chegadinha em http://desterritorializacao.blogspot.com/2010/01/nos-e-o-nosso-avatar.html. Comecei a falar do avatar para poder caminhar no mundo da virtualidade pelo olhar da desterritoriazação.
Esta história do avatar vai me levar a discutir a questão do corpo. Outro dia uma minha amiga, artista plástica, falou-me algo que me fez matutar: as estátuas de mulheres gregas eram formas masculinas de bunda e peitos. A mulher seria uma projeção do homem. Será que tem relação com aquela história de Eva que nasceu de uma costela do homem? Ou que a mulher seria um homem invertido?

Esta aproximação do mundo cristão com a Grécia antiga vai muito além das escolas de pensamentos que herdamos dos gregos; os “construtores” do cristianismo eram judeus Helênicos. Já li alhures que o mito de Adão e de Eva foi inspirado no mito da Caixa de Pandora.
Eu seu empacar pelo que me desencalhem.
Para que o ano passe mais rápido voltarei aos meus trabalhos de campo entre os guaranis do litoral. Tenho um projeto que está parado.
Esta é a minha programação para este ano.
Um feliz 2010 a todos.

Meus "dante Causa" paternos

Se Luigia Doff Sotta Cherobim fosse viva, ontem (30/01) teria completado 133 anos. Nasceu em Imer, Província de Trento, Itália, e faleceu em Morretes.

Se também fosse vivo, Fiorello Guillermo Cherobim teria completado 137 anos no dia 10 de janeiro.

São os meus dante causa do lado paterno. Tiveram cinco filhos, netos, bisnetos, trinetos e entre ascendentes diretos e afins há uma descendência que passa da centena e lhes permite a eternidade.

Foi um sábado de saudades.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Morretes como ela mesma



Os morretenses da minha época devem estar lembrados dos conflitos e das disputas com os antoninenses que eclodiam no futebol quando as equipes das duas cidades jogavam. Os juízes de futebol que apitavam as partidas dos times das duas cidades já vinham psicologicamente preparados a deixar o campo às disparadas para não apanhar por marcar faltas sempre tidas como proteção ao time adversário. Os antoninenses eram chamados de pés de anjo porque, diziam, tinham o hábito de usar tênis. Em contrapartida, diziam que os morretenses andavam de tamanco. Antonina tinha porto de mar, as Casas Pernambucanas, uma rádio, mas dependiam de baldeação de trem em Morretes. Os moradores de uma cidade sempre consideravam os da outra como os outros, os diferentes.

Mas o outro nem sempre é o diferente. Quando fui fazer o alistamento para o serviço militar na Base Aérea, avisaram-me que não estavam aceitando soldados de Morretes, de Antonina e de Paranaguá porque eram “puladores” (faltavam ao expediente, saíam escondidos, chegavam atrasados...) e não podiam ficar um final de semana fora do litoral. Para os curitibanos, todos os pirimbus eram iguais; mas as diferencias começavam surgir quando tomavam o misto (o trem da tarde, com vagões de carga e de passageiros) para descer a serra. E ficavam mais evidentes durante as tentativas de conquistar as meninas de Piraquara (por sinal muito bonitas!).
Estas relações conflituosas são rotineiras quando pessoas pertencentes a diferentes grupos (de países, Estados, cidades, times de futebol, escolas de samba, etc.) se encontram. Estas diferenças também aparecem dentro de grupos menores.
Continuando com o exemplo de Morretes, o riozinho (“rio da Fábrica”) que corta a cidade, dividia-a em duas metades, a do Operário e a do Cruzeiro (novamente o futebol!); o lado do Operário era PSD e o do Cruzeiro UDN. O “pedaço” do PTB (que agrupava os ferroviários) era do outro lado dos trilhos da Estrada de Ferro. Esta rivalidade dividia amigos e membros de família: Valdinho e os filhos da Chiquita moravam do lado do Operário, mas eram cruzeiristas; Divar, cruzeirista até hoje, é sobrinho de Valdico (irmão de Chiquita), operarista até a alma que hoje mora “do lado do Cruzeiro”. Corta cabelos na barbearia de Divar. Havia os que mudavam de lado. Nenê Scremin pertencia do lado do Operário, mas começou a jogar no Cruzeiro. Tanto fizeram que o trouxeram de volta. Evaldo Zilli sempre viveu do lado do Cruzeiro, mas foi “levado” para o Operário. Benedito Rolha, seu Roberto Lopes e filhos eram operaristas roxos que moravam do lado do Cruzeiro. Lauro Lopes, filho de seu Roberto, foi jogador do Cruzeiro e depois passou para o Operário. Os que mudavam de time eram trânsfugas para os antigos companheiros e motivos de elogios para os do novo time.
As situações descritas acima indicam que ser igual ou ser diferente é uma questão de situações e de interesses de momento. Em Curitiba (e até pegar o trem), morretenses e antoninenses eram todos iguais (“puladores”, por exemplo); em Morretes eram todos iguais frente aos antoninenses, mas se diferenciavam quando prevaleciam assuntos locais. Entra, aí, o conceito de gente. Gente somos nós; os outros não são gente. O que nos torna gente, então, é sermos iguais. Claro que isto tem gradações. Se estudarmos a história das famílias no Brasil, aprendemos que alguém para ser gente teria que se agregar a uma família, tornando-se “gente da família...” Não se agregando – e, portanto não sendo gente – perdia até o direito à vida. Os grupos tribais sempre se denominam como gente. Se for de outro grupo não será gente. Se trouxermos o ontem para o hoje e o que for indígena para nossa sociedade, podemos citar os exemplos das torcidas uniformizadas em que o simples vestir uma camisa de time adversário será motivo para “deixar de ser gente”.
Nós, de Morretes (nascidos, adotados, etc. pela cidade), somos gente de Morretes. Se assim somos, é porque temos interesses coincidentes, visões de mundo semelhantes (quem vê diferenças entre nós, somos nós mesmos), e, portanto características comportamentais similares. Esta identificação em ser “gente de...” é porque nascemos no seio de um grupo, ou uma comunidade, onde aprendemos a ser um de seus membros. Há, neste lugar geográfico em que nascemos uma população (um ambiente social) e uma paisagem (um ambiente físico, com um tipo de topografia, de solo para agricultura, de comércio, de meios de comunicações, tipos de comida – como o barreado). A interação destes dois elementos proporcionará uma característica especial aos seus moradores, à sua arquitetura, às suas atividades econômicas, um modelo de poder político, etc. Teremos, então, a partir destas características dizer que Morretes é assim e desta forma Antonina é diferente porque existem outras características que colaboraram em sua formação histórica. Apesar de muito próximas. Em outras palavras, em cada uma das cidades existem maneiras de agir, de sentir e de pensar apropriadas.
Estas maneiras de agir, de sentir e de pensar são uma forma simplificada do que os antropólogos chamam de cultura. Existem aquelas maneiras genéricas que chamamos de brasileiras e outras, ainda mais genéricas, que chamamos de ocidentais. Cultura brasileira e cultura ocidental. Se por um lado estas maneiras de agir, de sentir e de pensar podem se tornar cada vez mais genéricas, também podem se tornar mais específicas, podendo chamá-las de subexpressões culturais. O Paraná enquanto sociedade representa uma subexpressão da cultura brasileira, mas também pode ser considerado como uma subexpressão cultural do sul brasileiro. Mas também pode ser classificado segundo diferentes regiões, os chamados Paraná do sul, Paraná do norte, oeste do Paraná, e assim por diante. Qualquer divisão cultural que se queira fazer será válida porque nenhuma das regiões selecionadas é homogênea. Morretes poderá ser classificada como uma destas especializações. E é isto, então, que nos torna “gente de...” Nós fomos “construídos” pelo nosso grupo social e é isto que nos torna pessoas.
Se fomos socialmente “construídos”, esta “construção” obedeceu a um modelo sociocultural, econômico e político de onde fomos criados e educados. Nós, com as nossas idiossincrasias, denunciamos esta nossa socialização (o nome técnico daquilo que dissemos na frase anterior). Nós seremos reconhecidos (identificados) como um participante de determinado grupo. A nossa identidade foi construída desta forma. Só que a nossa identidade tem o sentido de mostrar em que grupo fomos socializado. A identidade de Morretes é a síntese das identidades apresentadas pelos morretenses. Claro que, quando fora de Morretes esta identidade de morretense em Morretes não terá significado porque agora todos são morretenses, e portanto “iguais”.
Falei de cultura enquanto conceito antropológico. O significado é amplo com o sentido de cultivo, seja na agricultura, seja no saber. A pessoa que estudou ou que lê muito, que “sabe das coisas”, é reconhecida como uma pessoa de cultura. Ela cultivou um saber. Um país, uma comunidade, também podem cultivar e conservar o saber de seus membros através de livros, bibliotecas, museus, monumentos, etc. Cada um de nós somos partes da (e de uma) história e o cultivo do saber é a preservação da memória desta história. E assim poderemos saber e dizer o quê e quem somos. Parte de minha história, e, portanto de minha identidade, está em Morretes. Se não preservar a memória desta identidade, perderei as minhas raízes. Podemos – e devemos – dizer o mesmo para com uma comunidade (ou cidade).
Quando passo por São Sebastião sinto uma saudade imensa de minha Morretes; quando vejo fotos de Parati lembro logo de Antonina. Estas cidades, de idades aproximadas, apresentam características semelhantes: as suas casas, as suas ruas e a disposição arquitetônica, seguiram um modelo cultural do momento histórico em que foram construídas. Por trás disto está o saber daquele momento, a disposição segundo as hierarquias social, política e econômica, um momento histórico congelado naquelas obras construídas pelo homem. É desta forma que vemos Morretes. Esta é a sua identidade. (Mauro Cherobim – São Paulo – jul/1997)
(Publicado originalmente em: Morretes como ela mesma. Jornal do Leste. Curitiba: outubro de 1997, p.08 (Opinião))

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O que é liberdade?

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O que é liberdade?
Escrevi este texto há algum tempo. Foi lembrado por uma amiga e postou em um tópico de uma comunidade do Orkut. Se serviu para a reflexão lá, talvez sirva aqui. E por isto compartilho com os leitores deste blog.
A liberdade não é só sair de trás das grades. Esta é a liberdade física. A verdadeira liberdade é poder ser, poder pensar, poder falar. É deixar falar e deixar pensar. A verdadeira liberdade é aceitar o outro, o diferente.

Liberdade não é dizer eu sou livre; a verdadeira liberdade é ser livre.

A verdadeira liberdade não ter a liberdade de ser submisso ao pseudo legalismo; ter liberdade é dizer não ao autoritarismo e enfrentá-lo.

Ter liberdade é poder olhar nos olhos dos outros e fazer com que os seus descendentes se orgulhem de você, inclusive pelos seus erros.

Ser livre é ser ético. É respeitar. Não é vestir máscaras para praticar chacotas.

Muita gente foi presa durante a ditadura e não aprendeu a ser livre; tornou-se simplesmente liberta. Ser liberto não é ser livre.

Não é fácil ser livre. Pouquíssimas pessoas são livres.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Ainda o assédio religioso

Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/esporte/fk3007200922.htm. Acesso em 19/08/2009.

30 de julho de 2009



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JUCA KFOURI

Deixem Jesus em paz


Está ficando a cada dia mais insuportável o proselitismo religioso que invadiu o futebol brasileiro


MEU PAI , na primeira vez em que me ouviu dizer que eu era ateu, me disse para mudar o discurso e dizer que eu era agnóstico: "Você não tem cultura para se dizer ateu", sentenciou.
Confesso que fiquei meio sem entender. Até que, nem faz muito tempo, pude ler "Em que Creem os que Não Creem", uma troca de cartas entre Umberto Eco e o cardeal Martini, de Milão, livro editado no Brasil pela editora Record.
De fato, o velho tinha razão, motivo pelo qual, ele mesmo, incomparavelmente mais culto, se dissesse agnóstico, embora fosse ateu.
Pois o embate entre Eco e Martini, principalmente pelos argumentos do brilhante cardeal milanês, não é coisa para qualquer um, tamanha a profundidade filosófica e teológica do religioso. Dele entendi, se tanto, uns 10%. E olhe lá.
Eco, não menos brilhante, é mais fácil de entender em seu ateísmo.
Até então, me bastava com o pensador marxista, também italiano, Antonio Gramsci, que evoluiu da clássica visão que tratava a religião como ópio do povo para vê-la inclusive com características revolucionárias, razão pela qual pregava a tolerância, a compreensão, principalmente com o catolicismo.
E negar o papel de resistência e de vanguarda de setores religiosos durante a ditadura brasileira equivaleria a um crime de falso testemunho, o que me levou, à época, a andar próximo da Igreja, sem deixar de fazer pequenas provocações, com todo respeito.
Respeito que preservo, apesar de, e com o perdão por tamanha digressão, me pareça pecado usar o nome em vão de quem nada tem a ver com futebol, coisa que, se bem me lembro de minhas aulas de catecismo, está no segundo mandamento das leis de Deus.
E como o santo nome anda sendo usado em vão por jogadores da seleção brasileira, de Kaká ao capitão Lúcio, passando por pretendentes a ela, como o goleiro Fábio, do Cruzeiro, e chegando aos apenas chatos, como Roberto Brum.
Ninguém, rigorosamente ninguém, mesmo que seja evangélico, protestante, católico, muçulmano, judeu, budista ou o que for, deveria fazer merchan religioso em jogos de futebol nem usar camisetas de propaganda demagógicas e até em inglês, além de repetir ameaças sobre o fogo eterno e baboseiras semelhantes, como as da enlouquecida pastora casada com Kaká, uma mocinha fanática, fundamentalista ou esperta demais para tentar nos convencer que foi Deus quem pôs dinheiro no Real Madrid para contratar seu jovem marido em plena crise mundial. Ora, há limites para tudo.
É um tal de jogador comemorar gol olhando e apontando para o céu como se tivesse alguém lá em cima responsável pela façanha, um despropósito, por exemplo, com os goleiros evangélicos, que deveriam olhar também para o alto e fazer um gesto obsceno a cada gol que levassem de seus irmãos...
Ora bolas!
Que cada um faça o que bem entender de suas crenças nos locais apropriados para tal, mas não queiram impingi-las nossas goelas abaixo, porque fazê-lo é uma invasão inadmissível e irritante.
Não mesmo é à toa que Deus prefere os ateus...

blogdojuca@uol.com.br

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Luciana

Há uns quatro meses faleceu uma amiga e eu escrevi em algum lugar que quando morre um amigo ou uma amiga vai junto um nosso pedaço. Um pedaço de vida. Uma experiência que todos passamos em face da sucessão de vidas que vimos findar.


Este pedaço de vida que vai junto com aquele morreu não é algo que se esvai, mas uma semente que permitirá a sobrevivência de quem desapareceu fisicamente. A lembrança que fica entre nós é o que aquela representou a todos nós enquanto viveu.


É será assim que Luciana permanecerá entre nós.


Eu nem me lembro há quanto tempo Aluizio e Luciana casaram. Lembro-me ser bem criança. Lembro-me da parentela subindo a serra, mas nem todos se aventurando em face das dificuldades de vencer a distância entre Morretes e Curitiba. E as “tias” começaram a perguntar quem era aquela tedesca com jeitão italianado, falando e rindo alto.


Sempre brinquei que Aluizio e Luciana saíam para a balada eu me transforma em baby-sitter da Luiza e depois da Luiza e do Neto, os seus dois filhos mais velhos. Depois veio uma seqüência para disputar com tio Jango. Não alcançou, mas chegou perto.


Falar de Luciana é falar de Aluízio e vice versa. Dois primos mais que primos, dois irmãos mais velhos. Quanta coisa teria que contar destes dois e são estas lembranças que farão com que Luciana permaneça presente entre nós que ficamos por aqui.


Luciana tinha muita admiração pela minha mãe. Em 1996 uma escola de Morretes recebeu o nome da minha mãe e as minhas irmãs pediram que eu escrevesse um texto e no dia da cerimônia eu teria que ler o texto. Achei que não conseguiria. Pedi para ela que lesse o texto. Ou melhor, que chorasse por mim. Ela chorou por mim.


Seria muito bom se pudéssemos retroceder no tempo para reviver os momentos bons que vivemos. Aluízio e Luciana são mais que primos, são os meus irmãos mais velhos. Esta presença de Luciana impede-me que me despeça dela. E é isto, tenho a certeza, que marcará a presença de Luciana em Morretes.


Prima, você está por aqui...



(não revisei o texto para não corrigir sentimentos)