segunda-feira, 26 de março de 2012

Beto Cardoso

Em 1973 eu saí da FAB. Acionei amigos e foz de tudo para que o meu desligamento fosse rápido, pois teria que assumir um cargo no Amazonas. Consegui que isto acontecesse e um ano depois retornei de lá e fui fazer tudo o que não pude fazer um ano antes. E o principal seria pear a documentação de desligamento da FAB. Fui ao QG do 4º Comando Aéreo, onde eu estava ligado funcionalmente. Ao chegar lá eu me encontrei com um sargento de fisionomia familiar. Ele saía do quartel em companhia de um civil. Fui a ele e perguntei se ele fora vendedor de bolinho de camarão na estação ferroviária de Morretes. Fora. Era o Beto Cardoso.

Beto era de uma geração anterior à minha, mas os Cardoso eram de fisionomia parecida. Eu não o conhecia muito bem. Em 1954, quando estudava em Curitiba, era passageiro frequente do misto, trem de passageiro e carga das sextas feira à tarde. Beto descia no expresso de sábado da manhã e todos nós subíamos de volta no domingo à tarde.

Beto costumava viajar todo garboso na sua farda cáqui de 3º sargento escrevente da FAB. O nosso encontro no QG, em São Paulo, aconteceu 20 anos após. Iniciamos uma amizade; eu fui algumas vezes na casa dele e ele foi à minha.  Logo a seguir ele se aposentou e retornou ao Paraná e soube que havia aberto um bar que se chamava algo como “aeródromo dos poetas”.

Numa das minhas viagens a Morretes soube que Beto havia falecido. Perdi um amigo e Morretes perdeu um poeta.

Encontrei um texto de Gilberto Gnoato que se refere a ele como “Alberto Cardoso - o grande menestrel morretense que tive a sorte de conhecer” (http://www.morretes.com.br/cultura/social/socialturismo.htm). Esta lembrança me motivou a escrever este texto  para que Beto não seja esquecido.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Uma festa de igreja

Eu morei em São José dos Pinhais, hoje apelidada de cidade metropolitana da Grande Curitiba. Uma coisa boa era quando a Prefeitura limpava a valeta que cortava duas quadras defronte à Igreja Matriz para o churrasco comunitário. Eu morava a uns 100 metros do local. No dia seguinte todo mundo sentia as queimaduras nas pontas dos dedos polegar e indicador.

A cidade era pequena; se escorregasse no centro da cidade iria parar nos sitiozinhos com as suas hortas bem cuidadas. Sentia-se morar no sítio e na cidade ao mesmo tempo. Um ambiente rural-urbano. Diferente de Morretes em que o rural e o urbano eram claramente delimitados.

As casas tinham, todas elas um quintal que ia até o outro lado da quadra, com as suas hortas, galinheiros e uma coberta, alguns com um compartimento fechado à guisa de depósito. Ali se armazenava a lenha, as ferramentas agrícolas de uso na horta e as sacas de serragem (pó da serra). Havia os meninos, com carrinhos de mão que forneciam serragem para o fogão. Colocava-se uma garrafa na boca principal do fogão e ia-se colocando a serragem em volta e socando, até completar toda a parte de queimar a lenha. Entre esta parte e a de baixo havia uma grelha de ferro que permitia a passagem da cinza para o seu depósito. Para que a serragem não escorresse por esta grelha, ela ficava sobre uma folha de papel.

Depois de toda a serragem socada, tirava-se a garrafa e acendia o fogo no espaço por ela formado. O ar começava a circular forçado pela sucção de ar da chaminé. “Tinha-se fogo”, na verdade um braseiro, que permitia fazer o café da manhã e o almoço. À tarde fazia-se o mesmo para o jantar. No inverno todas as portas internas da casa eram abertas para que o fogão servisse como aquecedor. Ao apagar as luzes via-se a chapa do fogão avermelhada.

E o forno de pão! Ficava no fundo do quintal, sob um telheiro. O fogo era aceso enquanto a massa era feita, batida e deixada para crescer. No inverno o calor do fogão ajudava para acelerar o crescimento do pão, do cuque. Deva tempo para consertar (trinchar) a galinha para ser assada. Uma galinha do quintal. Depenada com água quente, num latão sobre a chapa do fogão. 

Na transgenitalização galinácea, no Paraná frango vira galinha e aqui em São Paulo a galinha vira frango. Consertar a galinha era prepará-la para assar, cozinhar, etc. Na verdade desconserta, desmancha, trincha.

Tempo bom! Bem, o passado sempre é bom, melhor que o agora. O passado é conhecido e o tempo atual vê-se pela incógnita do futuro.

Esta introdução é para montar a imagem para falar das festas de igreja na periferia das cidades. Estas festas de igreja são as quermesses aqui de São Paulo.
As festas de igreja festejavam o padroeiro do lugar, organizadas pelos festeiros do local. Ela era antecedida pelas novenas, cada uma dela com um “patrocinador” e comandada pelo capelão da igrejinha.

A festa iniciava com a missa, os foguetes, e todas as demonstrações de religiosidades.  E era quando o vigário, a que estava subordinada a capela, realizava as desobrigas. Batizava e crismava as crianças, casava os ajuntados, realizava bênçãos. Tudo que precisasse de uma benção.  

A quermesse, na verdade, é o bazar ou a feira beneficente, com leilão de prendas, depois das cerimônias religiosas. E é aí que se desenvolvia a teojogatina. Todos os tipos de jogos. Um dos jogos era o leilão de prendas, mas a maior atração era a roleta (não maliciem!).

Girava a roleta com toda a força e ela era girava, girava, até parar num número. Era o momento de maior emoção entre os que compravam os cartões e os que torciam para alguém.

Os cerimoniais religiosos de uma festa de igreja tinham um caráter secundário. O que era importante era o congraçamento, os encontros, as fofocas. O churrasco comunitário que falei acima tinha a mesma finalidade.

Numa das festas havia uma galinha assada. Assada num forno a lenha. Deliciosa! Proseei com os meus botões e chegamos à conclusão que eu deveria “ganhar” aquela galinha. Estava “boludo”. Cheguei ao balcão e pedi: quero comprar a cartela inteira deste frango. A pessoa que me atendeu exclamou: BarbaridadE! Já vendi uma! O paranaense acentua o "e" final e fala de forma exclamativa. Então mE dá! (nesta época fui mandado - por castigo - trabalhar no Aeroporto de Afonso Pena, que fica no município de São José dos Pinhais. E o meu falar paranaense voltou).  Ma che barbaridade! Vai ter correr a roleta! (Ma che! Vício da italianada. São José dos Pinhais é uma área de colonização italiana). Então roda logo! Quero comer esta galinha! Mas a paúra começou a se avizinhar. Os meus botões me alertaram. Se il figlio de un porco tirar a galinha? Porco Dio, putano! O cara que comprou o bilhete foi sorteado e eu, com 19 cartões a ver navios. Barbaridade!

Na semana seguinte minha mulher caprichou uma galinha e assou no forno de fazer pão. As alemãs, as donas da casa da qual éramos inquilinos presentearam-nos com uma galinha que não botava mais. E eu fui o encarregado de cortar o pescoço da galinha e aproveitar o sangue para fazer a farofa com os miúdos.

domingo, 11 de março de 2012

O galinheiro e a transa


Outro dia eu escrevi a respeito de uma festa de igreja. Escrever é prosear com lembranças de fatos da vida. E registrá-las.  Prosa puxa prosa; lembranças puxam lembranças. Escrever é montar imagens e em cada uma abrem-se janelas para outras lembranças. Como a que contarei a seguir.

A casa que descrevi, geminada com a da senhoria e com o terreno com a extensão da quadra, tinha-o dividido ao meio. A primeira parte dividida em dois lotes, um para casa; a segunda parte era uma horta, um passatempo da proprietária da casa. Havia, nesse contrato de locação uma espécie de um sistema de prestações. Um casal novo, ao locar a casa, deu segurança pessoal (companhia) e financeira (sobrevivência) e recebeu de volta a atenção, quase filial. Eram duas senhoras idosas - para os padrões de então. A filha, de 50 anos e tantos e a mãe de quase oitenta anos de idade. Dentre estas atenções, o acesso à horta. Era mais um acesso para passeio e admiração às verduras e legumes muito bem tratados e algumas frutas, pois todas as manhãs, quando as duas senhoras faziam as suas colheitas, traziam a “nossa parte”.

Nos fundos do lote da casa da senhoria havia um galinheiro. Completava a alimentação com carne e ovos. A metade da alimentação, ou talvez mais da metade, vinha do quintal.

Os gêneros alimentícios eram quase todos comprados nos armazéns de secos e molhados e vendidos a granel. Feijão, arroz, trigo, fubá, macarrão, erva. Parte do feijão era produzida na horta. Uma vida rural-urbana. A casa ficava numa rua paralela à praça da igreja matriz, distante uns 100 metros da igreja.

 Ao lado da casa da senhoria havia uma casa, com uma casinha (edícula) aos fundos. A casa era de madeira e a edícula de tijolos. Parte de sua parede era geminada com a parede da parte coberta do galinheiro, onde as galinhas ficavam recolhidas e onde estavam os ninhos para as galinhas botarem.

Os donos da casa vizinha estavam sempre ausentes. Eu não me lembro que os tenha visto alguma vez. Na edícula havia um quarto ocupado pelo Polaquinho, espécie de um guardião da casa. Este guardião deveria ser louro, talvez de origem polonesa, ou talvez nem fosse. No Paraná (do sul) polaco, polaca, são sinônimos de louros. Esta referência está fora do departamento de preconceitos.

Certa noite, que já passava da meia noite, mas ainda não era manhã, fomos chamados pelas donas da casa. Era uma daquelas noites “paradas”, sem vento, em que as folhas secas estalam alto ao serem pisadas. O céu apresentava-se sem nuvens, pontilhado de estrelas. Permitia ver Marte, o Cruzeiro do Sul, as Três Marias e todas as constelações e estrelas identificáveis a olho nu.

Os olhos e a voz das  mulheres demonstravam temor. “Acho que tem ladrão roubando galinhas; elas estão inquietas”. Roubos na horta e no galinheiro afetavam a sobrevivência, sem falar de acontecer numa comunidade em que até raposas em galinheiro era escândalo.

Valente como todo moço que ainda não chegara à metade dos “vintes”, recém-chegado de Mato Grosso, ansioso para voltar a usar a winchester 44 papo amarelo trazida de lá. Vou pegar este ladrão de galinha na ponta do pau de fogo, pensei. Tal qual um John Wayne, um Tom Mix, um Alan Ladd, heróis dos seriados nos cinemas do interior, antes se serem transformados em igrejas crentes, que animava a gurizada no "galinheiro" (galeria) do cinema do Nhozinho em Morretes. Exercitei o porta-gatilho como faziam estes heróis do bang-bang; carreguei-a e repeti a pantomima.  Colocava a Tropa de Elite nas chinelas. A juventude e o heroísmo se multiplicam.

Quando cheguei próximo de onde o barulho inquietava as galinhas, havia silêncio. Nisto um ruído e as galinhas começaram a se alvoroçar. Com toda a coragem que aquela carabina me proporcionava, lembrei que era um sargento, ensaiei aquela voz de comando de enquadrar recrutas e melhor que as vozes de esquerda, direita, meia volta, saiu a “saia daí e rápido!”. Os sargentos pé-de-poeiras ficariam enciumados  com tal voz de comando de um sargento radiotelegrafista. Nada. Novo ruído e nova queixa das galinhas. “Saia daí! Vou contar até três. Se não sair irá fogo!” As mulheres encolhidas (além da minha), quietas... Esperando começar a guerra!... “UM... DOIS... TRÊS...”  PÃÃÃÃ! Um estampido seco numa noite seca! Um grito se seguiu ao tiro: “NEM AQUI PODE!...” E um tropel. Ou dois. Sei lá. A velocidade era tanta. Nem o portãozinho de  entrada foi aberto. Fui verificar, estava trancado. O trabuco já estava pendurado no ombro, à bandoleira. Todo herói dorme o sono dos justos.

No dia seguinte comentei com um conhecido que havia espantado um ladrão de galinha. Ele deu uma risadinha e matou a charada. Ladrão de galinha, nada! Você espantou o Polaquinho. Ou alguém que ele deixou ir trepar naquela casinha. O pessoal usa aquela casinha pra comer a mulherada, você não sabia? A cidade toda sabia. Para o azar do Polaquinho e dos seus convidados, eu não sabia. Ninguém me avisara.

Enquanto morei lá as galinhas não mais foram incomodadas nos seus sonos.

domingo, 4 de setembro de 2011

O espirro e a dentadura

Seu Vicente resolveu arrancar todos os seus dentes e colocar uma dentadura. Ele tinha que ir a uma festa onde ia aparecer então precisava estar com os azulejos em ordem. E foi ao meu tio:
- Juca me arranque todos estes dentes e coloque uma dentadura.
- É pouco tempo, Vicente, não dá. A gengiva vai murchar e você vai ter que fazer outra dentadura.
Isto faz tempo! Eu era um piazito pré-adolescente. Foi lá pela década de quarenta. Dá para sentir o drama de um tratamento odontológico numa pequena cidade do interior. A anestesia deixava a boca adormecida por todo o dia e a broca girava com o pedalar do dentista. O cérebro tremia. Literalmente.
Não teve jeito. Tio Juca teve que fazer a dentadura como o cunhado queria. Convencer cunhados não é fácil. Coitado do Vicente, Juca, você vai deixar que ele vá à festa com a boca deste jeito?
Naqueles antanhos não havia carro. Meu pai foi o primeiro caminhoneiro, um carroceiro promovido. Durante um ano o caminhão só andava para frente; imaginavam que fosse como carroça, que não andava de ré. Até que um dia ele deu uma cotovelada numa alavanca do volante, que até então ele não sabia a finalidade. Vai que mexer nisto vou estragar o caminhão? Ao arrancar o caminhão foi para trás e não para frente como se esperava. Foi um baita susto. E agora? Tenta daqui, tenta dali, e nada do caminhão ir para frente. Até que ele teve a ideia de dar uma cotovelada com o outro cotovelo. No sentido contrário. E o caminhão começou a andar para frente. E foi assim que meu pai e os morretenses descobriram que, diferente das carroças, os caminhões andavam para frente e para trás.  Meu pai contava que virou um herói. Livrou-se até das gozações por ter medo de sapos.
Tirando este caminhão, o que havia em Morretes eram carroças, toco-duro, aranhas e charretes. Numa comparação rústica, a carroça era o caminhão e o toco-duro era a picape leve daqueles tempos. Uma carroça com duas rodas e sem molejo. A charrete era a condução de passeio. Uma carroça que aproveitou a recente tecnologia automobilística. Da época. Um eixo com duas rodas de carro com pneus, molejo, um banco confortável e eu não sei por que, a preferência era por uma eguinha ligeira. A madrinha das tropas também era uma égua. A égua madrinha. Ela que dava o rumo para  a tropa. Se fosse potro,era para montaria.
Mas claro que também havia muitas éguas boas de cela. Nonno tinha uma égua que ninguém ganhava dela nas corridas de raia. E era boa de arreio na charrete.  Foi esta égua que foi buscar a parteira, Dona Margarida, quando eu nasci. Ela tinha um passo que era quase um galope. Eu ainda me lembro desta égua tordilha. Ela está nos meus lampejos de memória. Todos os dias nonno levava e trazia a minha mãe para trabalhar na cidade. Ela era professora.
A aranha era uma charrete com rodas de ferro. Ou seja, uma roda de madeira revestida por um aro de ferro.
Aos domingos, as carroças, os toco-duros, as aranhas e as charretes estacionavam em volta do morrinho da igreja. Todos com as suas roupas de missa. Alguns vinham a pé lá do Central, onde nasci. Eu morava no caminho do Central. Homens e mulheres vinham com as suas roupas de missa e os sapatos pendurados nos dedos. Quando chegavam às margens do valinho da química paravam, lavavam os pés e calçavam os sapatos. Seu De Rocco com a esposa  na frente, seguidos dos filhos, noras, netos, vizinhos, etc.
Quando eu já era adolescente fui assessor de cerimônias religiosas – eu e Valdinho éramos sacristãos privilegiados (eu já escrevi a este respeito). As figuraças eram o seu José De Rocco e o Sebastião Cavagnolli. Eles eram os responsáveis, um em cada lado da nave da igreja, em entoar o cantochão  Et cum spiritu tuo, em resposta ao Dominus vobiscum entoado pelo padre Camargo. Um dia perguntei para o seu De Rocco o significado daquelas palavras. Você sabe que eu não sei? É alguma coisa com espírito. Fui aprender o significado mais tarde, no ginásio. Padre era o nosso professor de latim. Eu e Valdinho sempre tínhamos boas notas.
Eu não me esqueci de seu Vicente. A sua condução era uma aranha e ele morava na Fortaleza, um dos núcleos de colonização da Nova Itália. Seu Domingos (Don Domenico) era o capo de lá. Pai do Vicente e sogro do tio Juca. Um dia, que seu Vicente não soube explicar, se era resfriado ou os pelos do nariz, começou a espirrar. E num dos espirros, o mais forte, a dentadura voou da sua boca para baixo da roda (de ferro) da aranha. Ficou em pedaços.  
E foi como tio Juca avisara... não lhe falei Vicente?...
Mas aí a gengiva já secara. Foi mais fácil fazer nova dentadura. Com menos sofrimento.

sábado, 2 de abril de 2011

A bananeira da terra e o “braço da direção”

Morretes  já foi conhecida como a terra da cana-de-açúcar, da banana e agora do barreado. Cada fase deixou a sua história. A fase da cana-de-açúcar para a fabricação da cachaça tornou o verbete morretiana um sinônimo da cachaça. Isto se deve ao Marquinhos Malucelli que tinha a sua pinga morretiana com o “pau dentro”, isto é, um pedaço de gomo de cana dentro da garrafa. Era a mesma pinga numa garrafa bonita e de preço bem mais alto. Marquinho endoideceu, comentavam. Hoje se elogia o seu tino para negócios.

Quando os Malucelli construíram a usina de açúcar, era grande o trânsito de caminhões, carroças, tratores, carregando cana. Do amanhecer ao anoitecer, durante a safra de cana. Eu fui criado na Estrada do Central onde ficava o engenho. Havia outros engenhos de pinga que também trabalhavam a todo vapor.

Elias Maia era o “Rei da Banana”. Parte da banana consumida em Buenos Aires era morretense. Em Curitiba também. Vagões ferroviários saíam carregados de banana embalada para viagem marítima, exportada pelo porto de Paranaguá. 

A banana também era transportada para Curitiba por via ferroviária.

Os bananais ficavam nas encostas das serras. Os cachos eram transportados nas costas, por vezes por zorras, até as carroças ou aos caminhões e daí para a cidade.

 Papai tinha um caminhão e volta e meia era contratado para ir buscar banana nas roças.  Ainda me lembro de um Chevrolet ano 39 serpenteando por estradas de carroça, morros acima.

Eu tinha os meus sete, oito anos, e era seu passageiro constante. Ele se afastava e me sentava frente ao volante e falava: leve! Levar era dirigir. Mas conservava o controle dos pedais da embreagem, do freio, do acelerador e o câmbio (troca de marchas). E não admitia as minhas barbeiragens. Quando cometia alguma ele gritava logo “Porco Dio! Não sabe dirigir?”. Eu me afastava e ele me colocava de volta e vinha a “voz de comando”: leve.

O meu pai tinha vocação para capo. Que eu me lembre, dos cinco irmãos era o único que era chamado de nonno. Eu, como filho mais velho, queria me transformar em capo, seu herdeiro. Hoje, pelo que sei, parece-me que sou o único nonno entre os meus primos.

Era comum, nos carros de então, escapar o “braço da direção”, uma alavanca de ferro que liga o eixo do volante à roda, o carro fica desgovernado. Meu pai cortava “camisas de câmara de ar” e com ela enrolava o “braço da direção”. Este cuidado se devia da falta de confiança que ele adquiriu numas viagens numa roça de banana. Foi lá para os lados do Marumbi. Para lá dos Gnata. Era serra.

Vinha descendo a serra quando soltou o “braço da direção”. O caminhão saiu da estrada, desceu uma barroca e parou seguro pela mata. Os ajudantes estavam em cima da carga de banana, com os pés sobre a cabine, como era costume. Dentre eles estavam meus dois tios, irmãos de minha mãe, tio Almir e tio Rubico.

Quando o caminhão parou lá embaixo, o pessoal que estava sobre a carga foi arremessado para dentro do mato.

Refeitos do susto, contava meu pai, fez a contagem do pessoal que estava sobre a carga. Estavam todos, menos tio Rubico. Rubicooooo!!!! Nada de Rubico. Será que Rubico morreu? Pegaram foices e facões de começaram a afastar o mato para encontrar o desaparecido.

Depois de muito trabalho, ouviu-se, baixinho, to aqui!... Onde? Aqui, onde? aqui!... Ele estava empoleirado, abraçado no alto uma bananeira da terra. Alta e de tronco fino.

Quando ele foi arremessado bateu e se abraçou no alto da bananeira, acima do cacho. Como balançava, ele temia que se falasse alto a bananeira viesse a quebrar com ele lá em cima.

Tiveram que cortar escoras com forquilhas para escorar a bananeira para ele descer.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

1º de abril de 2011

Há 47 anos, nas primeiras horas deste mesmo dia em 1964 as tropas do General Olímpio Mourão saíram de Juiz de Fora em direção ao Rio de Janeiro. No decorrer do dia aconteceram várias coisas e no final foi consumado do golpe de 1964.

O que temos depois deste tempo? Temos este Brasil. Esta é a realidade. Uns dizem que com o golpe está pior e sem o golpe seria muito melhor. Não sei. Temos o que temos.

Dizem que temos uma democracia cheia de defeitos. Democracia sem defeitos é utopia; ela é defeituosa por não é um fato, mas um processo. E este processo  nos obriga olhar para trás, não só nestes 47 anos, mas nos 66 anos desde a queda do Estado Novo em 1945, ou mesmo nos 81 anos do golpe de 30. Ou até antes. Olhar para trás para que possamos olhar o futuro sem os erros do passado.

Os erros são muitos e recorrentes. Ainda temos o peleguismo atuante. Desde Getúlio. Um governo com características peleguista é um governo fascista. O peleguismo foi a base do governo Lula. Ainda bem que ele soube segurar os seus pelegos. Hoje temos duas classes de políticos, ambos órfãos do regime militar : os que choram a pretensa “ilha de paz e sossego” que se pretendia passar aos cidadãos, e uma outra classe que aprendeu todos os defeitos do regime e hoje posa de vítimas.

E nós, cidadãos, vítimas de um processo capenga? Teremos que tomar consciência de nossa cidadania, escapar do marcatismo “de esquerda”, do politicamente correto.

O dia 1º de abril é o dia da mentira. Proponho torná-lo o dia da consciência da cidadania.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Nós e o fumo

Entre a minha casa e a agora chamada Ponte Velha, a ponte da Vila Santo Antonio, havia uma casa geminada. Na  casa da frente morava Dona Albertina, com duas filhas, Ione, a mais velha e Iole, mas nova e mais velha do que eu.  Dona Albertina era casada com o seu Francisco, conhecido como Pica-pau. O pássaro. Na casa dos fundos morava Dona Albertina, casada com o seu Artur, chefe dos guarda-linhas dos correios e telégrafos. Guarda-linha era aquele funcionário eu percorria as linhas telegráficas dos correios. Dona Albertina, a xará da primeira (elas nao se davam) tinha um casal de filhos que morava com ela. Nardinho, da minha idade e uma filha, já adulta, que enrolava cigarro de palha e vendia em maços de vinte cigarros.

Nardinho ajudava a irmã na fabricação de cigarros e "desviava" um maço para fumarmos no porão dos fundos de casa da minha casa. Isabel, a “secretária” de minha mãe, um dia nos viu fumando.

- Mas estes meninos fumando!...   Vou falar pra Dona Dulce.

Éramos piazitos, no máximo com 10 anos de idade. Tivemos que comprar o silêncio de Isabel. Tivemos que repartir o maço em três.

Um dia papai descobriu. Não sei como. Mas não falou nada para mamãe.  Aplicou uma chantagem irresistível: Se você fumar o pai vai para a guerra. Todos aqueles que estão lá são pais que têm filhos que fumam.

A chantagem funcionou; meu pai foi o melhor amigo que já tive. Era aquele bronqueiro, cheio de palavrões que aprendeu com nonno, mas os olhos marejavam facilmente.

Nonna fumava cigarros de palha. Tinha até uma guilhotina de picar fumo. Nonno não fumava e nonna não fumava na frente dele. Tio Tonicão fumava cigarros iguais aos da mãe (nonna) e tinha hábitos parecidos com os dela, como o de esvaziar os colchões. Os colchões eram um saco cheio palha de milho e era de onde tiravam a palha para fazer os cigarros.

Nonna e Tio Tonicão me ensinaram a picar o fumo, enrolar a palha, mas eu não fumava. Vai que inventassem uma nova guerra!...

A sociedade nos impõe vícios. Fumar era uma forma de mostrar macheza. Hoje em dia quem não bebe é out. Out era quem não fumava. Fumar era assim. E fumei até há uns vinte e cinco anos.

E hoje aqui estou com uma gripe forte e o resultado do raios-X indicou uma mancha que poderia ser enfisema pulmonar ou uma pneumonia. Boa notícia: era pneumonia. Notícia pouco melhor: não era pneumonia, mas uma inflamação. Mas com acompanhamento as expectativas são positivas.

Não fosse o fumo, não estaria aqui. Quem hoje fuma deve pensar no futuro. Morrer, morre-se de qualquer forma, mas morrer com qualidade de vida é muito melhor do que anteceder a morte com todos aqueles sofrimentos que os males pulmonares causados pelo fumo provocam.

O corpo somos nós. Ele é a nossa vida. E nós o maltratamos ao para nos mostrarmos socialmente com bebidas, fumos, drogas. Todos queremos ser in. Mas não nos maltratamos somente por isto; nós nos maltratamos por questões morais, religiosos, estéticos, etc.

E o fumo permeia tudo isto.