segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Carta Aberta

Recebi uma carta aberta de Izaltino Tonetti, amigo desde o nosso curso primário (hoje chamado de fundamental). Fomos alunos da minha mãe e Tino nos conta um falto que lhe foi marcante. Passarei a palavra a ele, mas à frente, transcrevendo a sua carta.

É gratificante falar da nossa mãe. Ela faleceu há 57 anos. 58 anos em março próximo. Os seus últimos alunos estão, hoje, na faixa dos 70 anos. Há 16 anos  ela é nome de uma escola. Fico imaginando os alunos ficarem a pensar “quem é Dulce Serôa da Motta Cherobim?”.

A minha mãe faleceu jovem.  Com 45 anos. Muito jovem aos padrões de hoje. Foi uma professora prestigiada, muito ciosa da sua atividade. Fui aluno dela por duas vezes.  Uma vez na escola primária e outra vez no ginásio, atuais quatro últimas séries do curso fundamental.

Quando um filho fala dos seus pais fica a pairar no ar uma suspeição, mas posso dizer que eu não fui um bom filho o quanto eu tive uma boa mãe. Digo o mesmo com relação ao meu pai.

A minha mãe educou os seus filhos e viveu numa época diversa da atual e numa cidade pequena e relativamente isolada. E a professora que tinha um filho entre os seus alunos tinha que tomar certos cuidados, poias tanto agora como naquela época os pais sempre foram ciosos pelas notas escolares dos seus filhos. Muitas vezes ela me chamava a atenção como exemplo à classe. Nunca fui um bom aluno durante toda a minha vida escolar, mas também nunca fui dos últimos. E a carta do Tino conta um destes fatos, como disse acima, marcante para ele. Eu não me lembro deste fato que ele narra.

Mas tenho que fazer uma retificação. Fomos alunos da minha mãe no grupo escolar quando funcionava onde hoje está o Colégio Rocha Pombo. Deveríamos estar no 2º ano do primário. A mudança para  o prédio da rua XV, recém construído, foi no ano letivo de 1948. Estávamos no 4º ano.

Izaltino Tonetti  com a palavra!


DONA DULCE,
POR IZALTINO TONETTI.
        Um dia pensei em escrever uma Carta Aberta ao colega de escola Mauro Seroa da Motta Cherobim, lembrando o nosso tempo de escola que juntos estudamos. Nossa escola se chamava "Miguel Schleder". Ela ficava de frente com a Rua XV de Novembro em Morretes, Paraná.
       Tinha na frente já com dez metros de altura, sete palmeiras "real" e que do outro lado da rua tinha o Bar e Restaurante "Barril" que era o nome dele, e que pertencia a Dona Maria Malucelli Ferreira (Mariquinha) e do lado do bar, era o Mercado de Secos e Molhados do Benedito Antunes de Oliveira..
       No tempo da safra de café a rua XV ficava cheia de caminhões carregados de café e que no Bar e Restaurante "Barril" os caminhoneiros ali almoçavam para depois seguir para Paranaguá. Tudo que se produzia no Paraná para exportar, passava pelo centro da cidade de Morretes.
       Atrás da escola havia também sete palmeiras "real", quase na beira do Rio Nundiaquara.
       lamos para a escola usando guarda pó, tênis brancos e "loirinha", que era uma sandália feita na sapataria do Sr. Horácio Martins de Andrade e do Sr. Aramys Zanardi.
       Antes de nós entrar nos formava de dois em dois, sendo que os meninos» ficavam na frente a as meninas atrás. Cantávamos o Hino Nacional ou o Hino da Bandeira. Depois entrávamos para a sala de aula, sendo que as meninas sentavam na frente e nós atrás. Nossa carteira era de madeira, com uma gaveta em baixo para por as sacolas dos cadernos. Os pés eram de ferro fundido e parafusado no chão, que era de taco de madeira.
       Na escrivaninha havia no meio um buraco para por o tinteiro, para molhar a pena da caneta para escrever. Nossa cadeira era de ferro com acento de madeira e o encosto também apoiado em dois braços de ferro e parafusado no chão. E havia uma regulagem no pé, para regular a alturas das pernas das crianças. A escrivaninha da Professora tinha o tamanho de um metro e meio de comprimento por setenta de largura. A cadeira era de madeira. O quadro-negro tinha quatro metros de largura por um metro e meio de altura. Era feito na própria parede. Era moldurado em madeira e na parte de baixo havia um espaço para por giz e o apagador. A Professora sempre escrevia no quadro-negro as lições do dia. Passava problemas que nós copiávamos no caderno onde fazíamos as continhas para chegar ao resultado final. Passava também expressões de frações decimais e ordinárias para que também achássemos o resultado. Estudávamos regras de três, regras de juros e de geometria. Também Geografia, História, Português (verbos, adjetivos, substantivos, etc), Ciências.
       Tudo isso e muito mais só uma Professora ensinava o ano inteiro. Nossa Professora tinha muita paciência. Quando alguém fazia bagunça na sala, como o Nicolino Cunha que sempre puxava o cabelo da Luzia Porcides, que sentava na frente da sua carteira. Ela alertava a Professora, dizendo assim: “Professora olhe ele aqui está puxando o meu cabelo". A Professora só olhava o bagunceiro com aquele olhar cativante, macio, amoroso que, ao vê-lo ele ficava envergonhado e ficava quieto. Como que com aquele olhar a Professora estivesse pedindo silêncio, para que ela nos pudesse ensinar.

       Certo dia a Professora passou no quadro-negro umas continhas para serem feitas. Copiamos no caderno e estávamos fazendo para achar o resultado. Aí a Professora foi de carteira em carteira para ver se estávamos fazendo certo. Ao chegar na minha carteira e ver o meu caderno ficou admirada e chamou meu colega Mauro dizendo: "venha até aqui meu filho" e você (Mauro) atendeu o pedido de sua mãe que completou: "olhe aqui meu filho porque você não faz como o Tonetti, ele ocupa todo o espaço do caderno. Onde tem espaço para fazer uma continha ele faz. E você faz uma em cada página do caderno".
       Essa reprimenda a você foi elogio para mim, vindo da Professora que era a sua própria mãe, Dona Dulce Serôa da Mota Cherobim.
       No fim do ano eu fui o primeiro da classe ao tirar a melhor nota nos exames. Ganhei da tua mãe uma caixa de chocolates.
       Aqui termino a minha carta, sentindo saudade daquela época em que o ensino fundamental era mais proveitoso.
       O que aprendemos nosso tempo, hoje só nas universidades.
       Do seu colega Izaltino Tonetti.
       Sessenta e sete anos depois...
       Morretes, Paraná, Brasil, 18 de abril de 2013.
       Telefone: (41) 3462-2589
       E-mail: Etonetti@hotmail.com



sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Coroinha iniciante

Todo guri da minha idade sentia-se prestigiado em ser sacristão (coroinha). Pudera! Passava a conviver no mundo adulto, tinha responsabilidades e podia atender pedidos dos membros da Igreja. Mesclava momentos de vida adulta com momento de vida de adolescente. Do início de adolescência. E era ouvido na cidade através dos toques dos sinos.

Valdinho foi ser sacristão antes de mim. Ele não teve sossego enquanto não conseguiu uma vaga para mim.

Até que chegou o dia. Na verdade não esperava. Era na Igreja de São Benedito, e a missa era solene da festa do padroeiro da igreja. Faltou um dos sacristães. Valdinho me indicou e o Padre Camargo me aceitou.

O altar dominava a nave da Igreja de São Benedito num dos seus extremos, e no outro, a entrada principal.

À direita de quem olhava para o altar havia a cadeira do Padre, ladeada por duas cadeiras menores, onde sentavam os coroinhas. Logo a seguir, uma mesinha onde ficam os cálices de vinho e a seguir, a porta de ingresso à sacristia.

O Padre e os coroinhas se aparamentavam na sacristia. Recebi um camisolão vermelho e uma blusa branca que quase alcançava os joelhos.

O caminho da sacristia para o altar era estreito. O Padre ia à frente, seguido pelos coroinhas e por último, Seu Roberto França, o capelão da igreja. Neste dia, Valdinho vinha logo atrás do Padre, trazendo a Bíblia e a seguir eu, com o turíbulo. E lá seguimos para o início da missa.

Como eu era novo, coube a mim acender o carvão para colocar no turíbulo. Era a função da plebe rude, o sacristão iniciante. Como naquele tempo todos tinham fogão à lenha, esta primeira etapa foi fácil; isto era feito num recipiente de ferro, que deveria ter sempre carvão em brasa para a eventualidade de ter que reabastecer o turíbulo. Ao lado do altar havia um pequeno recipiente com incenso para colocar no braseiro. O segundo passo foi aprender a manter o movimento pendular para que as brasas ficassem sempre bem acesas. Era um movimento delicado, diferente do balançar o ferro de passar roupa a carvão.

O Padre ficava no centro do altar e o coroinha principal a sua direita passando a ele tudo que fosse necessário no decorrer da missa. Nem precisava pedir, pois se fica sabendo o momento certo de quando o Padre fará alguma coisa.

Eu tive que ficar em pé, à esquerda do altar, balançando o turíbulo e pronto para fazer algo fora do altar.

Numa altura da missa veio o primeiro pedido. Pedido nada! O Padre virou para o meu lado e falou, num cochicho alto: o vinho. Vinho? O VINHO! Hã? O V I N H O!!!!!! Até então eu não sabia que o padre tomava vinho no decorrer da missa.

Olhei para o Roberto França e perguntei: onde está o vinho? LÁ NO FUNDO!  E isto aqui? O turíbulo, não sabia onde deixar aquilo. ME DÊ AQUI, GURI! E lá ficou Roberto França turibulando.

Fui correndo na sacristia buscar o vinho. Não encontrei.
Voltei e perguntei para o Padre:

- não encontro o vinho, Padre, onde está?

Interrompeu a reza que estava balbuciando e indicou:

- aí no fundo.

Voltei para a sacristia e fiz uma procura em regra. Abria e fechava gavetas, abria e fechada porta de armários e nem reparei um esqueleto que havia na prateleira de um dos armários.

Enquanto corria de um lado para outro, chega Roberto França:

-  o que você está fazendo aqui; está atrasando a missa!

- procurando o vinho... O Padre me mandou aqui nos fundos, buscar...

E começou me ajudar a procurar até que “caiu a ficha”.

            - o vinho da consagração. Puta la merda! Tá na mesinha, ao lado do altar...

Ele me explicou como deveria fazer e foi pegar o turíbulo que já estava quase apagado. Tudo isto demorou uns 20 minutos (ou mais) e o Padre já estava sentado na poltrona ao lado do altar esperando para continuar a missa.

Não me deixou levar o turíbulo ao Padre com medo que fosse atrasar a missa um pouco mais.

Imaginei que a minha carreira de coroinha estivesse terminado naquela primeira missa. Mas não.

A não ser uma vez que quase incendiei a Igreja Matriz eu me tornei um coroinha eficiente.

Era uma novena. A Igreja esta quase cheia. Fui acender todas as velas de todos os altares. Os castiçais ficavam no alto. Usávamos uma vara comprida e na ponta havia um local para colocar uma vela, e ao lado, um cone para apagar vela. Após acender a vela, esbarrei no castiçal e ele caiu numa toalha que enfeitava o altar. Eu não reparei e fui acender as velas em outro andar. Nisto ouço um grito: FOOOOGO!! Os homens correram para o altar, e como era alto, tentavam subir no altar firmando o pé embaixo dele. Mas não havia nada. Todos que acudiam caiam sob o altar. Até que alguém conseguiu subir e apagar o início do incêndio.


Por fim, aprendi no ofício. 

sábado, 12 de janeiro de 2013

Lampejos de memória



Lampejo, diz o dicionário, é uma manifestação rápida e/ou brilhante duma ideia; (..) um clarão ou brilho repentino; (uma) faísca, fagulha, centelha, chispa”. Lampejo de memória é aquela lembrança rápida, clara como uma centelha, rápida como uma faísca. Eu tenho estes lampejos de memória de nonno.

Eu tinha três anos, nove meses e cinco dias quando nonno faleceu. Muito pequeno para me lembrar dele, mas estes lampejos são desta idade para menos. Para que estas lembranças ficassem marcadas nonno deve ter sido muito importante para mim.

Ele e nonna cederam o quarto deles para os meus pais morarem na época da gravidez de minha mãe; ali nasceria o primeiro filho do filho caçula. Nonno levava a minha mãe para cidade para lecionar e voltava buscá-la. Estes foram os meus primeiros momentos de vida ao lado dos meus avós paternos.

Há um lampejo, acho que o de menor idade, em que eu estava na charrete (ou “aranha” – uma charrete com rodas de madeira e aro de ferro), sentado entre nonno e minha mãe, saindo da estradinha do engenho do Central, entrando na estrada principal, que nos levaria à cidade. O cavalo assustou-se por alguma coisa, saiu da estrada. Minha mãe gritou e ele disse: “Não se assuste, Dulce. Não foi nada”. Corte! Um corte que veio até hoje.

Num outro lampejo eu entrava na sala de jantar e nonno estava sentado numa mesa redonda, pequena para a sala, com uma pequena tigela com vinho; ele picava pão e mergulhava no vinho. Não sei se foi ele que falou que havia vinho na tigela. Bem mais tarde, já adulto, falando a respeito com o meu pai, ele me falou deste hábito de nonno, de fazer sopa de pão com vinho.

Um dos lampejos aconteceu na casa construída pelo meu pai e que existe até hoje. Nonno já demonstrava estar doente. Eu estava sentado na escada da entrada da varanda, chegaram ele e nonna que iam da cidade para o Central. Pararam defronte de casa. Demonstrando fraqueza, Nonno desceu da charrete, mas não se atreveu subir os degraus da varanda. Ficou conversando comigo apoiado na sua bengala. O lampejo termina antes de nonna sair para retornarem ao Central.

Num outro lampejo eu me vejo no quarto dele, doente e de cama. Uma visão rápida.

Numa manhã, o meu primo Carlito, filho do tio Jango, chegou em casa. Ele deveria ter uns 10 ou 11 anos. Falou alguma coisa e meu pai se apressou em se arrumar e me arrumar. Pegou a ramona (Chevrolet Ramona de 1927), um caminhãozinho com cabine de madeira e sem portas.  Sentou-me no banco e falou para que Carlito ficasse no para-lama, fechando a entrada da cabine. Não me lembro se a minha mãe já havia ido ou foi depois.

Havia movimento na frente da casa e um ataúde no centro da sala da frente. Colocaram-me no colo, acho para o ver o nonno pela última vez, mas eu não me lembro de o ter visto. Vi algo que não parecia ser ele. Há um pequeno corte e me vejo sendo colocado no colo de alguém na janela. Dali eu pude ver o féretro na estrada, ao longe. Houve uma sensação, não sei se daquele momento, ou uma sensação que cresceu com a idade, de algo que perdia; de uma última visão. É uma lembrança acompanhada de um nó na garganta e de os olhos quererem marejar. 

Escrevi este texto em 10/01/2007 data do seu aniversário. Faleceu com 69 anos.
Fiorello Guglielmo Cherobim  
10/01/1872 Gazzo, Padova, Italia 
25/03/1941 Morretes, Paraná, Brasil.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Morretes, a sua história, a nossa identidade


Este texto foi publicado em 1º de fevereiro de 2007.

Dos 13 alunos que terminaram o ginásio em 1953, dois moram aqui em São Paulo: eu e o Adaulino Rocio de Castro Pinto. Para uns, Nino para outros.

Há uns cinco ou seis anos (por volta de 2001) Adaulino foi a Morretes e na volta comentou comigo: cheguei lá e não encontrei a minha Morretes. De fato, a nossa Morretes não mais existe. Nós mesmos somos outros. Éramos adolescentes, pós-adolescentes e hoje somos sexagenários, pós-sexagenários, septuagenários, todos portadores da história que sentimos como não fosse em nós, mas em um “nós outros”, nossos alter egos na forma de “nós-ontem”, portadores da nossa história.

Isto quer dizer o seguinte: nós que vivemos fora e longe de Morretes não vivemos o seu presente, mas a sua história. A nossa Morretes é a Morretes da história. Somos como nexos da história com o tempo presente.

Esta introdução, meio filosófica, meio antropológica, meio estrambótica, é para falar da Cida. Cida é uma minha nova amiga, uma nova amiga virtual, na linguagem do “internetês”. Foi Morretes que nos aproximou e foi assim ela que me encontrou.

Tenho um fotoblog, isto é, um espaço na Internet, onde coloco fotos de Morretes. As fotos são recentes, mas os comentários que faço a cada uma delas “são do meu tempo”. Relembro pessoas e imagens com as quais convivi. Ali coloco a “minha verdade”, as minhas lembranças. Morretes, na minha visão de mundo, é o nome do fotoblog (http://cherobim.fotoblog.uol.com.br/). Dentre as fotos há uma foto do Grupo Escolar “Miguel Schleder”, com as suas palmeiras imperiais.

Um dia recebi uma mensagem da Cida, uma mensagem emocionada. As suas palavras foram mais ou menos estas: “eu vi o seu fotoblog! Você me devolveu uma parte da minha historia”. Ela era menina quando o seu pai foi trabalhar em Morretes. As suas lembranças eram poucas, mas as fotos e os comentários permitiram reconstruir parte da sua memória.

Passado algum tempo, Cida fez outro pedido: queria localizar o local onde morou. Isto estava fora do meu alcance, pois não recordava de nenhum dos nomes que ela citou. As suas informações eram lembranças do seu tempo de menina. E isto há muito tempo!... Que fazer? Lembrei-me: um trabalho para Super Odith!

Coloquei as duas em contato, e Cida passou algumas informações  que (Super) Odith foi juntando os pedaços. Com  fotos do Google Earth e uma foto aérea de Morretes eu ia transformando em imagens o que Odith lembrava e descobria. Até chegar na casa onde Cida morou.

Cida ficou emocionada por ter mais um pedaço da sua história. Eu fiz uma viagem da história para o presente e Odith viajou no sentido contrário, do presente para a história.

Muitas pessoas e imagens da historia de Morretes se fizeram presentes. Dona Margarida, a parteira de Morretes. Juca Pereira, ex-prefeito municipal e ex-vizinho da Cida menina. A casa do seo Felix, herói da meninada, galopando pelas ruas da cidade quando um boi fugia. Ele e o seu fiel escudeiro, um aprendiz que se tornou um exímio boiadeiro. No momento foge-me o seu nome. Era o filho da Bucheira (uma senhora que vendia bucho e cebo de bois para as mulheres que faziam sabão em casa). A corrida de bois na cidade era uma festa. Uma correria.

Outras imagens começaram a se compor na minha memória: a rua da fábrica com os seus botecos cheios de gente; a fábrica de papel em funcionamento e a troca de turnos de operários; os trens manobrando e as Marias-fumaças indo se abastecer na Caixa de Água, manobrada pelo seo Baiano. O movimento de caminhões, carroças, tratores com reboque, transportando cana para a usina de açúcar. E nós correndo atrás para roubar cana. E a comentar, nos intervalos, os carroceiros que melhor estalavam os chicotes.

 O trânsito rodoviário de Curitiba para Paranaguá que passava por dentro da cidade. Era uma Morretes que pulsava uma vida que não mais existe, mas que ainda pulsa em cada um de nós que fomos tocar a nossa vida em outras terras brasileiras. 

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Um porre de quira.


Quira embriaga[1]

Eu entrava na minha adolescência e fazia cobrança para a Aliança da Bahia Capitalização. O representante em Morretes era o seu Marquinho De Bona. Odith, da mesma idade, cobrava na cidade e eu nos sítios. Todo final de mês pegava a bicicleta e andava por todos os cantos do município. América de Baixo, América de Cima, Marumbi, Fortaleza, Anhaia, Mundo Novo...

Os locais mais cansativos eram os engenhos do seu Sanson e dos Gnatta, pois ficam aos pés das serras. As estradas eram estreitas e com pedras no seu leito. Ao mesmo que era difícil e cansativo ir e voltar, a recepção que tinha por parte daquelas pessoas e o fato de apesar de recém-entrado na adolescência exercia uma atividade remunerada eram gratificantes. Nos engenhos de cachaça havia uma gentileza a mais: convidar ir até os cochos de fermentação para tomar quira.

Quira era o nome que se dava ao caldo de cana fermentado que ao passar pelo alambique para ser destilado; depois da fervura e evaporação “pinga” na bica do alambique. Eis porque a cachaça também é chamada de pinga.

Seu Lori Alpendre era um dos donos de engenho de cachaça e dono de uma apólice.  Como em todos os engenhos, morava próximo. Numa das cobranças cheguei no engenho do seu Lori suado, cansado e com sede. Eu deveria ter, nesta época, uns 12 ou 13 anos. Ele pediu para esperar um pouco enquanto ia buscar as apólices em sua casa e sugeriu que eu fosse tomar um pouco de quira, mas não tome muito, que poderá fazer mal, uma recomendação que os donos dos engenhos de cachaça sempre faziam: não tome muito, pois faz mal. Mas nunca explicavam que mal era este. Mas era muito leve e gostosa!
.
O cocho de fermentação é colocado num local sombrio e fresco. Um contraste à canícula morretense. Tomei o primeiro gole, e logo o primeiro caneco.. Era um caneco feito de lata de óleo de cozinha. O primeiro caneco desceu tão bem!... O segundo, o terceiro... Não sei quantos... Que delícia! Seu Lori retornou, acertou a mensalidade e eu fui embora.

O engenho dele ficava cerca de dois quilômetros da entrada da cidade. Na metade do caminho senti um problema na roda da bicicleta que não a deixava a bicicleta andar em linha reta. Desci, estava tudo certo, mas a danada da bicicleta teimava em andar de um lado para o outro da estrada. Comecei a notar, neste ziguezaguear que o problema  não era com a bicicleta, mas comigo, pois a minha vista começou a ficar ruim, a boca meio amortecida, Mesmo assim imaginei que fosse por causa do ziguezague da bicicleta. Atravessar a cidade ziguezagueando não foi fácil; e quanto mais ziguezague, mais tonto ficava.

Cheguei em casa junto com a minha mãe. Eu me joguei na cama e falei para ela que  estava morrendo. Ela, como toda mãe, correu chamar o Doutor Baraúna, o médico da cidade. Do jeito como minha mãe saiu o pessoal começou a se aglomerar: o filho da Dona Dulce está muito mal, parece que está morrendo! E eu me sentia com um pé na cova...

Doutor Baraúna, vendo-me daquele jeito, talvez suspeitando “das causas do meu mal”, começou a me perguntar algumas coisas e eu não conseguia falar nada, parecia estar com a boca cheia, a língua pesava uma tonelada. Olhou para mamãe e falou: Dona Dulce, este guri está embriagado... Ele tomou muita quira.

Foi o meu primeiro porre sem saber que estava de porre. Eu não sabia, até então, que a quira embriagava. Era o “mal” que os donos de engenho falavam...

sábado, 7 de abril de 2012

Revendo o Central. 313 anos de história em alguns minutos.


Estes comentários foram revisados e publicados no sábado, 7 de abril de 2012, data de comemoração dos 82º aniversário de Sirley Malucelli Lippmann, sobrinha neta de nonna Luiza Sotta. Por esta coincidência, que fui saber somente hoje (01/09/2012), dedico este texto à prima Sirley.




Este texto foi publicado em 31/05/2005. Cópia editada.

Em dezembro (de 2004) fui ao Central rever o local onde nasci. Queria mostrar para Mirtes, minha filha.

Onde havia a casa em que nasci havia uma macega.  Mas a nossa memória é imagética, ou seja, as nossas lembranças têm a forma de imagens. “Vi” o engenho funcionando, as carroças chegando carregadas de cana, a casa, a bica onde Nonna lavava as garrafas de leite, tio Jango cuidando da locomove. A casa era movimentada, com o galpão ao lado e nos fundos a estrebaria e era onde as mulheres iam conversar enquanto faziam sabão com bucho de boi, folhas de parrelheira, potassa e mais algumas misturas para dar o ponto. A potassa era guardada numa tábua, no alto e próximo às telhas. Um dia caiu na cabeça da Lolinha, mulher do Giocondo. Foi lavar a cabeça e caíram todos os seus cabelos; ficou careca por um ou dois anos.

Os chiqueiros ficavam à direita e nos fundos o pasto das vacas e cavalos.

Saíamos pelos fundos, até a estrada dos Cassilhas. A esquerda, cruzando a estrada, o campo de futebol.. Fui retrocedendo no tempo e cheguei no dia em que Nonno faleceu. Ficou gravado na minha memória o féretro passando na estrada principal, acho que sentindo que aquela era a última vez que o veria. Deu um nó na minha garganta, como se aquilo fosse naquele momento.

O meu ex-genro, italiano, comentou com a minha filha que ele e os italianos da Itália que não tiveram emigrantes entre os seus parentes, não conseguem imaginar o modo de pensar dos italianos do Brasil. Ou dos italianos de fora da Itália. A Itália para os italianos daqui não é a Itália, estado europeu, um país... algo mítico, como um passado distante. País, para eles é o Brasil. O nosso mundo é o mundo em que nascemos e vivemos; é a colônia onde desenvolvemos a nossa vida social. É a marca de nossa identidade. É o nosso território.

Num determinado momento o espaço que marcamos como território desaparece, as pessoas mudam e nós passamos a nos sentir descolados do mundo. Perdemos o que sobrava de raízes, pois a maior parte delas ficaram nas terras de origem de nossos avós. E pelas andanças por aqui muitos de nossos antepassados ficaram até sem os seus documentos.

Nonna Luigia Doff Sotta, Luiza Sotta Cherobim, nasceu em 1877, em Imer, Província de Trento. Seus pais eram Giuseppe Doff Sotta e Maria Innocenza Simion, nascidos, respectivamente  em 1836 e 1846. O meu bisnonno Giuseppe era filho de meu trinonno Giovanni, nascido em 1801 e minha bisnonna Maria Innocenza Simion era filha de Nicolo Simion e Maria Darrigo, ambos nascidos em 1822. Giovanni era filho de Pietro que nasceu em 1755, filho de Giovanni Maria nascido em 1726. Giovanni Maria era filho de Giovanni Domenico que casou com Lucia Goubert em 1692. Do casamento de Giovanni Domenico e Lucia Goubert até hoje retrocedemos  313 anos na história.

A comuna de Imer, na sua organização, presenteou os Cherobim descendentes de nonna Luiza em 313 anos de história e de raízes eu desapareceram sob a mata que cresceu sobre o chão que nos sentiu pisar.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Beto Cardoso

Em 1973 eu saí da FAB. Acionei amigos e foz de tudo para que o meu desligamento fosse rápido, pois teria que assumir um cargo no Amazonas. Consegui que isto acontecesse e um ano depois retornei de lá e fui fazer tudo o que não pude fazer um ano antes. E o principal seria pear a documentação de desligamento da FAB. Fui ao QG do 4º Comando Aéreo, onde eu estava ligado funcionalmente. Ao chegar lá eu me encontrei com um sargento de fisionomia familiar. Ele saía do quartel em companhia de um civil. Fui a ele e perguntei se ele fora vendedor de bolinho de camarão na estação ferroviária de Morretes. Fora. Era o Beto Cardoso.

Beto era de uma geração anterior à minha, mas os Cardoso eram de fisionomia parecida. Eu não o conhecia muito bem. Em 1954, quando estudava em Curitiba, era passageiro frequente do misto, trem de passageiro e carga das sextas feira à tarde. Beto descia no expresso de sábado da manhã e todos nós subíamos de volta no domingo à tarde.

Beto costumava viajar todo garboso na sua farda cáqui de 3º sargento escrevente da FAB. O nosso encontro no QG, em São Paulo, aconteceu 20 anos após. Iniciamos uma amizade; eu fui algumas vezes na casa dele e ele foi à minha.  Logo a seguir ele se aposentou e retornou ao Paraná e soube que havia aberto um bar que se chamava algo como “aeródromo dos poetas”.

Numa das minhas viagens a Morretes soube que Beto havia falecido. Perdi um amigo e Morretes perdeu um poeta.

Encontrei um texto de Gilberto Gnoato que se refere a ele como “Alberto Cardoso - o grande menestrel morretense que tive a sorte de conhecer” (http://www.morretes.com.br/cultura/social/socialturismo.htm). Esta lembrança me motivou a escrever este texto  para que Beto não seja esquecido.