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quinta-feira, 17 de março de 2011

O jacu do seu Sinibaldo

O jacu é uma ave de veneta. Diria, hoje, uma ave com bipolaridade, pois o seu humor varia entre uma mansidão extrema e uma ferocidade terrível. E parece ter memória excepcional, pois reconhece todas aquelas pessoas de quem não gosta e faz chamegos com aquelas pessoas que gosta. Esta variação de humor poderá até nos levar pensar que jacu também é gente, como se ouvia falar de um antigo ministro collorido a respeito de seu cãozinho. Dizia-se ser fofoca da oposição e aqui não vou além da figura de retórica.

É muito perigoso para um ádvena querer entrar em grupos de fofoca em Morretes em face de rede de parentela. Seu Sinibaldo era nosso vizinho. Era um dos membros da colônia Nova Itália, casado com  irmão de um tio e o seu sogro era irmão do marido de uma minha tia avó. Era tio primos meus e mais tarde se tornou co-sogro do meu tio, seu cunhado. E eu me tornei primo por afinidade do seu filho caçula. E dois irmãos do Seu Sinibaldo casaram com duas irmãs, filhas da minha tia avó, primas da sua esposa.

Uma rede muito imbricada. Ah, não entenderam! Hoje estou meio atrapalhado. Pudera, estou num quarto de hospital tentando curar os pulmões estuporados por tabagismos ativos e passivos. Mas eu estou eufórico, pois o médico acabou de me falar que com um controle irei longe. Quando eu fico eufórico acho de contar causos de Morretes, mas a euforia também nos deixa meio atrapalhado.

Quando falamos em algo imbricado usamos como analogia a disposição das telhas num telhado. Se mexer numa telha, três ou quatro outras saem do lugar. Se fofocar um morretense estaremos envolvendo três ou quatro outros na fofoca.

Alceu Maynard de Araújo foi meu professor e depois colega de docência. Ele tinha um artigo a respeito de uma pesquisa realizada em Alagoas me que falava da D.I.V.A. (Departamento de Investigação da Vida Alheia). A D.I.V.A. que ele descrevia reunia-se numa farmácia e eu me lembrava da farmácia do Roberto França, casado com a  ilha da minha tia avó que  me referi acima. Os chefes da D.I.V.A. eram o Cilo, filho do Roberto, Seu Piero e Seu Leopoldo Vizini. Mas havia outras D.I.V.A.s em Morretes. A barbearia do Valdico era uma delas. Uma D.I.V.A. enxuta era na alfataria do Honilson Madaloso. Era a rodada da chimarrão que Honilson preparava  na reunião com seu Arlindo de Castro, seu João Cebola e seu Tone Gonçalves. Eu era um guri, mas chegava mais cedo para preparar o chimarrão, deixar a água bem chiadinha, para poder ser aceito na rodada.

Não dá para contar os causos desta rodava pois correrei o perigo de não poder mais aparecer em Morretes, Apesar de eu ser o único sobrevivente do grupo.

Em Humaitá, Amazonas, eu participava da D.I.V.A. local nas escadas do porto fluvial. Salu, então Prefeito, Israel, farmacêutico e presidente da Câmara, Venturinha que preparava o café. E eu, que entrei ao grupo a convite do Salu. Funcionários da Prefeitura, barqueiros, beiradeiros, pescadores, etc., todos iam contar as boas novas da cidade. Os evangelistas e Humaitá.

Mas a minha euforia pulmonar me fez lembrar do jacu do seu Sinibaldo. Era um homem à frente e acima da média dos seus contemporâneos. Era escritor e poeta. Espírita. O galinheiro era uma mansão galinácia. Tinha um “navio” ancorado no rio (Nhundiaquara). Na verdade uma barcaça que não podia fazer grande coisa pois não passava  na corredeiras (apelidadas de cachoeiras do rio). E entre tantas outras coisas, tinha um jacu.

Eu e as minhas irmãs e eu éramos pequenos. Como todas as crianças fazíamos algumas brincadeiras típicas da idade. Uma  vez comemos um cacho de banana outro. Comíamos apertando a casca, deixando-a oca. Quando demos pela coisa havíamos comido todo o cacho. Não sei quem teve a idéia, acho que a minha irmã, logo após a mim, de encher as bananas de terra e deixar do quintal do seu Sinibaldo. Deixamos arrumadinhas, pois era muita banana para pouco espaço.

Quando dona Italinha viu aquilo ficou apavorada. Achou que a feitiçaria contra ela.  Ela e minha mãe eram  muito amigas e ficou na frente da casa até a minha mãe chegar da escola (era professora): Dulce, fizeram um feitiço contra mim, ajude-me a rezar terço... e as duas desfiaram mil rezas até dona Italinha se acalmar.

Minha mãe deve ter desconfiado daquele feitiço pois havia nos proibido de comer aquela banana, para amadurecer um pouco mais. Min há mãe achou de deixar pelas rezas e esquecer o caso.

Nosso divertimento era enfezar o jacu. Fazíamos isto porque ele dava mostras de ser nosso amigo. Mas era diferente com o seu Camilo e com o seu De Rocco.

Seu Camilo, homem quieto e de boa paz tomava conta da sorveteria e da torrefação de café no Seu Nhozinho. Seu De Rocco, lavrador do Capituva e rezador de boa voz nas missas de domingo e nas missas solenes. Era bem falado na cidade e tentavam imitá-lo quando respondia o Dominus Vobicus no meio da missa: Et cum spiritu tuu. A solenidade da missa ia aos extremos quando De Rocco fazia  dupla com Sebastião Cavagnolli. A voz da dupla valia pela missa. 

A cidade toda tinha o maior respeito para com o seu De Rocco, menos o jacu do seu Sinibaldo. Nós, piazitos na mais tenra idade, eramos quem socorria o seu Camilo e o seu De Rocco dos ataques do jacu.

Morretes, desta época, era pavimentada com conchinhas do mar. Depois fomos saber que estas conchinhas eram sambaquis, local de sepultamento dos antigos índios da costa brasileira. Com a proibição do uso “das conchinhas” a prefeitura resolveu pavimentar as ruas com paralepípedo, mas antes de fazer isto estendeu a rede de água e de esgoto. A nossa brincadeira era correr por aquelas valetas de cerca dois metros de profundidade por menos de um metro de largura.

Jazar era o responsável dos trabalhos de instalação da rede de água e de esgotos. Moço forte, recém chegado de Piraquara, ao invés de se restringir ao trabalho de feitor era o primeiro a pegar a picareta para abrir as valetas.

Antes da instalação da rede de água e de esgotos as casas construíram as suas “casinhas” em cima de um buraco chamado de “fossa negra”. Era um perigo ser ferroado  por uma mosca varejeira quando se praticava o sagrado momento filosófico.

O meu pai construiu não uma casinha, mas um WC, com um vaso de louça como os atuais,  com um encanamento pra despejar os dejetos no meio do rio. Ah, se os ambientalistas de hoje vivessem naquele momento!

Era uma privada moderna, só que a descarga era feita jogando água com balde. Na nossa cabeça infantil não entendia como é que jogava toda a água e ainda ficava água dentro da bacia. Papei dizia que era assim mesmo, mas para nós, crianças, havia algo errado.

Seu Sinibaldo, o dono do Jacu, inovou ao colocar a privada dentro de casa. Não tinha os nossos inconvenientes de ter que sair nos dias de frios, de chuvas, à noite.

Vovô, pai de mamãe (meus avós maternos eram chamados de vovô e vovó e os paternos eram chamados de nonno e nonna), adorava a nossa privada. Uma privada no mundo das casinhas.

Os senhores de então usavam uma calça com a cintura mais alta. Apesar  de haver as passadeiras para passar o cinto, costumava-se passar o cinco  por fora e mais abaixo. Quando se ia fazer as  necessidades fisiológicas desafivelava o cinco e passava no pescoço. Havia até piadas neste sentido.

- Eu vi fulano no mato com o cinto no pescoço.

- Meu Deus, ele se suicidou?

- Não, estava cagando.

Vovô tinha este hábito. Como ele gostava tanto da nossa privada, saía feliz com o corpo aliviado e com cinto em volta do pescoço. E assoviando. E o meu avô era a terceira pessoa a que o jacu tinha marcação.

O jacu não gostava do meu avô e odiava o seu assovio. Mas nunca o atacara. Até que, um dia, o jacu estava num daqueles dias (se fosse jacu fêmea diria estar de TPM), pulou em cima do meu avô. Puxou o cinto para se defender pelo lado oposto da fivela, bateu na sua cabeça provocando um “galo” (calombo resultado de uma batida). Ao fugir do jacu enroscou a sua cabeça no varal de roupas.

O meu avô ficou inconformado com o ataque. Era um homem bem articulado, escrevia poesias comestrofes decassílabas, camonianas, refertas (abundante, cheia) de beleza estética, com predominância da personificação ou prosopopéia[1]”. Os seus discursos lidos em solenidades. Atacado por um jacu. Este ataque foi tema de discussões que duraram alguns meses.

Seu Sinibaldo ficou muito envergonhado com o que aconteceu e se desfez do jacu. Mas o meu avô não esqueceu do ataque que sofreu.



[1] Beto Cardoso, poeta morretense, foi quem definiu as poesias de vovô como camonianas. As poesias de Beto também eram camonianas e tinha Morretes como tema. As de vovô tinham um estilo biográfico. Os versos de Castro Alves eram  camonianos. Ver http://www.revista.agulha.nom.br/@fma16.html.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Por que e como me tornei um antropólogo




Este texto foi publicado em http://mcherobim.multiply.com/journal/item/6/6 em 29 de julho de 2007 às 14:39.



Há quase duas décadas precisei escrever um memorial e nele mostrar porque e como segui a carreira na Antropologia. Claro que alinhei uma série de fatos, verdadeiros, é claro, mas talvez não suficientes para dar uma guinada na vida em direção da Antropologia. Mas existiu um fato concreto, real, que me fez pensar: é isto que eu vou ser.

 Estas lembranças voltaram à minha memória porque no início de agosto fará dois anos que o meu amigo Almir faleceu (este texto foi escrito em julho de 2007), Ele foi o autor de uma interferência nos meus projetos de vida, em me tornar um professor (como comento lá no final).
 Eu era sargento radiotelegrafista da FAB, com um ano na graduação militar, nos meus 22 anos, trabalhava numa estação de aerovias em Xavantina, a atual Nova Xavantina, Mato Grosso. Faz tempo!
 Cheguei lá no dia em que os revoltosos de Aragarças fugiram para a Bolívia. As tropas do Exército acabaram com o estoque de comida. Com a saída do Exército todos os vôos ficaram proibidos na região e como era época das chuvas, ficamos isolados. A nossa alimentação passou a se constituir de arroz com abóbora num dia, abóbora com arroz no outro e assim, intercalando o cardápio, passamos cerca de dois meses.
 Quando os aviões do Correio Aéreo Nacional voltaram a voar na sua linha Rio de Janeiro – Santarém, pudemos sentir como era bom adoçar o café e salgar a comida! Abóbora? ...levei uns 10 anos sem comer.
 Num dos primeiros vôos do CAN (Correio Aéreo Nacional) havia entre os passageiros um homem, de uns trinta anos, alto, loiro, cabelo cortado curtinho, falando inglês. Perguntei para um sargento da tripulação:
  - quem é este cara?
 - um antropólogo.
 - Antropólogo? O que é isto? O que faz? Quis saber.
 - sei lá!  Ele vai numa aldeia de índios, faz perguntas, anota, e depois volta para a terra dele e escreve um livro.
 Bah! Pensei com os meus botões. É isto! Vou estudar antropologia, venho para cá, fico numa boa, não vou ter tenente, capitão, coronel, brigadeiro para me torrarem a paciência com as suas ordens... eu me dou bem com os Villas Boas, foram amigos do Lourival (um primo do meu avô, oficial do Exército e que participou da Expedição Roncador Xingu)... Vou ser antropólogo...
 Quando falei dos meus planos para alguns  amigos eles me perguntavam o que era antropologia, o que fazia...  ficavam sem respostas, pois eu também não sabia. Se dissesse que era para voltar para o Xingu iriam me chamar de doido.
 Como andei atropelando os regulamentos militares em Xavantina transferiram-me para Curitiba para trabalhar com dois suboficiais “disciplinadores”. Por minha sorte um deles foi aluno da minha mãe, em Morretes.
 E aí começou a minha busca para saber onde poderia estudar Antropologia. Indicaram-me o curso de História Natural. Mas era Antropologia Física. Até então esta especialização não me dizia nada. Quando descobri o que era Antropologia Física, já aluno do curso de História Natural, senti que não era aquilo que me levaria para o Xingu. Indicaram-me, então, um curso da Universidade Católica, Sociologia, Política e Administração Pública.
 Por alguma coisa que eu talvez tenha feito, a esquerda começou a me chamar de “gorila” e a direita, após o golpe achavam que eu era comunista. Por sorte não tive tempo de ter crise de identidade política e o bom senso me indicou uma transferência rápida. Voltei para São Paulo. Terminei o meu curso na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e em seguida entrei para o Pós de Antropologia na Universidade de São Paulo.
 Sentia que o meu Projeto estava tomando forma. E é aí que Almir entra na jogada.
 Almir era aluno de um dos cursos que eu fazia e era diretor do Centro de Ciências Humanas da OMEC, agora Universidade de Mogi das Cruzes. Convidou-me para lecionar e eu aceitei na hora, pois até então eu consertava TV para complementar o meu ganho na FAB. As instituições de ensino superior privadas, no final da década de sessenta, início da de setenta pagavam relativamente bem e eu me enchi de aulas. Pude assim me livrar de todos os compromissos financeiros, comprar um carro e uma casa. E ir ao Xingu. Mas a FAB começou me atrapalhar. O final da década de sessenta e início de década setenta, com repressão política, muitos sargentos especialistas sendo presos, o entusiasmo de ser "fabiano" foi esfriando. Deixou de ser uma carreira, transformando-se num simples emprego. 

Mas ainda na FAB retornei ao Xingu. Ao passar por Xavantina, a última escala para chegar ao Xingu. Ainda ao descer do avião lembrei do diálogo de onze anos passados. Um ano depois deixei a FAB.
Os índios Guarani do litoral paulista "roubaram-me" do Xingu, pois naquele momento já desenvolvia um projeto de pesquisas etnológicas entre os índios Guarani. 

Este foi o início de uma vida de muitas décadas.

Em tempo: no final do expediente das organizações militares é lido ("cantado") um Boletim (Boletim Ordinário), uma espécie de Diário Oficial. Num deles foi publicado que todos os militares que tivessem cursos civis, em qualquer nível, deveriam registrar estes cursos. E eu havia feito o curso de Sociologia. Informei e "cantou em Boletim".

Dois ou três dias depois eu me encontrei com um oficial e tivemos o seguinte diálogo:
- Cherobim, você fez o curso de socialismo?
- Não, fiz o curso de Sociologia. Se saiu errado vou corrigir.
- É que para mim socialismo e sociologia é tudo a mesma coisa.
- Mesma coisa, como?
- São todos subversivos. 
- Subversivos? 
- Claro, estão sendo cassados.
- Bem, se este for o parâmetro, muito mais militares foram cassados que sociólogos. Neste caso as escolas militares são subversivas. O Senhor não acha?

E assim encerrou a nossa conversa.

Este diálogo mostra bem como eram os ânimos no período pós AI5.


domingo, 1 de agosto de 2010

Ler e escrever. Para início de conversa


Eu me inscrevi no Multiply há certo tempo[1]; não me lembro se convidado por alguém ou "cai" por aqui por um dos tantos caminhos que navegação da Internet nos oferece. De uns tempos para cá comecei a receber convite e informação de minha amiga Itamara.
Eu tenho dois prazeres na vida. Na verdade, tenho muitos. Mas aqui eu me restringirei a dois: ler e escrever. Não é nesta ordem, e até pode ser, pois eu não sei qual seria a ordem de preferência. Da minha preferência.
Ler é cômodo. Paramos e continuamos quando bem entendemos. Lemos diferentemente de acordo com o assunto. Por vezes começamos da primeira página e vamos até o final; outras vezes, como nos livros técnicos, vamos lendo aos pedaços como se fossem manuais; algumas vezes transformamos o livro numa obra de referência, pois a nossa leitura foi aquela chamada "leitura transversal". Eu acho que são estes livros que nos marcam mais presença, sem nunca os ler como mandam os bons modos. Mas existem aqueles que nunca terminamos. Porque para nós são os melhores; terminar uma leitura de um livro é como colocá-los na (nossa) história, no passado; aqueles que nunca terminamos é porque queremos que estejam sempre no presente.
O final de uma leitura é o momento formal de se colocar o livro na nossa história. Mesmo que não se confesse, ele vai partilhar da poeira das prateleiras de nossas estantes. Provoca um complexo de culpa; para aliviar esta culpa, por vezes, vou lá folheio, ou uma olhada em alguns tópicos, fecho e devolvo à prateleira. Eu faço isto com as teses, dissertações e trabalhos de término de curso que orientei ou examinei. Estes trabalhos têm um problema: o da leitura compulsória, por dever de ofício. Mas ao fazer isto, lembro de pessoas. Com alguns mantenho contato e outros sumiram. Por onde andarão? Talvez - ou na certeza - mergulhados nas suas tantas obrigações. Ali estão anotadas algumas observações, importantes no momento da argüição que o tempo se obriga em diluir a sua importância.
A Internet, com a possibilidade de se comunicar através de e-mails, site de relacionamentos do tipo do orkut, gazzag e outros, messengers, etc., e com o nosso nome nos sites de busca, fazem com que sejamos encontrados. Estes encontros vêm com algumas lembranças: lembra-se do que você falou? Puxa, aquela sua observação... E por ai vai... Temos que reconhecer que o professor é uma pessoa pública.
Aquela leitura chata, empanturrada  de expressões típicas de um snobismo acadêmico, traz os seus bons frutos e médio ou longo prazo, não pelo que está escrito, mas pelas pessoas que estão por trás daquilo que lemos.
E escrever? Quando entrei no pós o meu orientador me advertiu: você escreve em italiano, mas com palavras portuguesas. Eu? O que é isto? retrucava em pensamento, não existe brasileiro mais legítimo que eu. Até quando eu o acompanhei a Pedrinhas, um núcleo de colonização italiana, hoje município do oeste paulista. Ele não me levou para um confronto étnico, mas porque tinha idéia que eu continuasse o trabalho, e que isto fosse feito por um italiano. Na verdade um "italiano", ou  alguém italianado.
Esta idéia de "autenticidade brasileira" foi para o brejo. Nunca havia me sentido um italiano e me via não sendo mais o brasileiro que imaginava ser. Que diabo eu sou? Como escrevo "em italiano" se não sou italiano, mas como uso a estrutura italiana se sou brasileiro? Mandei às favas esta questão de identidade e resolvi partir do que eu era. Mas era o que, se nem eu sabia? Ah, sou isto! O negócio é soltar no "ponto morto" (posteriormente, "na banguela") e ver onde vai parar.
Por que eu era italianado? Eu nasci em Morretes, onde foi criada a primeira colônia de italianos do Paraná e eu nasci e me criei em um dos seus núcleos, o do Central. Revendo o passado, havia uma coesão étnica, aproximando-os territorialmente, apesar de os núcleos estarem separados no espaço físico, na prática religiosa, nos interesses políticos, no futebol, etc.  Portanto, não havia jeito de ser diferente.
Naquele momento eu tinha duas coisas pela frente, essenciais para terminar o meu pós graduação: continuar as minhas pesquisas juntos aos guarani[2] () e aprender a escrever, é claro.
Quando fui aluno da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo adquiri um anuário antigo da escola. Numa de suas partes ensinava a escrever. E lá havia uma orientação: a linguagem cientifica deve ser redigida em frases curtas e na ordem direta. Eureka! É isto, pensei. E comecei a colocar em prática.  Partir daí eu me tornei um leitor de manuais de redação. Numa das leituras havia um conselho: respeite o leitor: use palavras conhecidas para evitar  que o leitor leia o seu texto com um dicionário na mão.
A erudição com vocabulário rebuscado é uma forma de usar o segredo como forma de poder; a erudição desejada é aquela que torna inteligível ao leitor comum pensamentos muito elaborados. De transmitir ao leitor emoções através da palavra escrita. Este é um treinamento sem fim, mas que satisfaz a quem escreve.
Portanto, eu gosto de escrever, ou melhor, de treinar a escrever contando e comentando coisas. É o que pretendo fazer aqui. Mas somente poderei fazer isto com o auxílio dos meus eventuais leitores.



[1] Este texto também está publicado em http://mcherobim.multiply.com/journal/item/1/1 . Estou trazendo alguns textos de lá para cá.
[2] Não errei a concordância em número. Existe uma norma de grafia de nomes indígenas, segundo a qual eles são invariáveis em gênero e em número.