domingo, 6 de fevereiro de 2011

O galinheiro e a transa

Outro dia eu escrevi a respeito de festas de igreja. Escrever é prosear com lembranças de fatos da vida. E registrá-las.  Prosa puxa prosa; lembranças puxam lembranças. Escrever é montar imagens e em cada uma abrem-se janelas para outras lembranças. Como a que contarei a seguir.

A casa que descrevi, geminada com a da senhoria e com o terreno com a extensão da quadra, tinha-o dividido ao meio. A primeira parte dividida em dois lotes, um para casa; a segunda parte era uma horta, um passatempo da proprietária da casa. Havia, nesse contrato de locação uma espécie de um sistema de prestações. Um casal novo, ao locar a casa, deu segurança pessoal (companhia) e financeira (sobrevivência) e recebeu de volta a atenção, quase filial. Eram duas senhoras idosas - para os padrões de então -, uma de 50 e tantos e outras de quase oitenta anos de idade. Dentre estas atenções, o acesso a horta. Era mais um acesso para passeio e admiração às verduras e legumes muito bem tratados e algumas frutas, pois todas as manhãs, quando as duas senhoras faziam as suas colheitas, traziam a “nossa parte”.

Nos fundos do lote da casa da senhoria havia um galinheiro. Completava a alimentação com carne e ovos. A metade da alimentação, ou talvez mais da metade, vinha do quintal.
Os gêneros alimentícios eram quase todos comprados nos armazéns de secos e molhados e vendidos a granel. Feijão, arroz, trigo, fubá, macarrão, erva. Parte do feijão era produzida na horta. Uma vida rural-urbana

 Ao lado da casa da senhoria havia uma casa, com uma casinha aos fundos. Parte da parede desta casinha era geminada com a parede da parte coberta do galinheiro, onde as galinhas ficavam recolhidas e onde havia os ninhos onde botavam os ovos.

Os donos da casa vizinha estavam sempre ausentes. Não me lembro de que os tenha visto alguma vez. E na casinha havia um quarto ocupado pelo Polaquinho, espécie de guardião da casa. Este guardião deveria ser louro, talvez de origem polonesa, mas, no Paraná (do sul) polaco, polaca, são sinônimos de louros. Esta referência está fora do departamento do preconceito.

Certa noite, já passava da meia noite mas ainda não era manhã, fomos chamados pela dona da casa. Era uma daquelas noites “paradas”, sem vento, em que as folhas secas estalam alto ao serem pisadas. O céu sem nuvens, pontilhado de estrelas, permitia ver Marte, o Cruzeiro do Sul, as Três Marias e todas as constelações e estrelas identificáveis a olho nu.

Os olhos e a voz da dona da casa demonstravam temor: “Acho que tem ladrão roubando galinhas; elas estão inquietas”. Roubos na horta e no galinheiro afetavam a sobrevivência, sem falar de acontecer numa comunidade que até raposa em galinheiro era escândalo.

Valente como todo moço que ainda não chegara à metade dos “vintes”, recém-chegado de Mato Grosso, ansioso para voltar a usar a sua winchester 44 papo amarelo trazida de lá. Vou pegar este ladrão de galinha na ponta do pau de fogo, pensei. Tal qual um John Wayne, um Tom Mix, um Alan Ladd, heróis dos seriados nos cinemas do interior antes se serem transformados em igrejas crentes. Exercitei o porta-gatilho como faziam estes heróis do bang-bang; carreguei-a e repeti a pantomima.  Colocava a Tropa de Elite nas chinelas. A juventude e o heroísmo se multiplicam.

Quando cheguei próximo de onde o barulho inquietava as galinhas, havia silêncio. Nisto um ruído e as galinhas começaram a se alvoroçar. Com toda a coragem que aquela carabina me proporcionava, lembrei que era um sargento, ensaiei aquela voz de comando de enquadrar recrutas e melhor que as vozes de esquerda, direita, meia volta, saiu o “saia daí e rápido!”. Os sargentos pé-de-poeiras ficariam enciumados  com tal voz de comando de um sargento radiotelegrafista. Nada. Novo ruído e nova queixa das galinhas. “Saia daí! Vou contar até três. Se não sair irá fogo!” As mulheres encolhidas, quietas... Esperando começar a guerra! “UM... DOIS... TRÊS...”  PÃÃÃÃ! Um estampido seco numa noite seca! Um grito se seguiu ao tiro: “NEM AQUI PODE!...” E um tropel. Ou dois. Sei lá. A velocidade era tanta. Nem o portãozinho da entrada da casa foi aberto. Fui verificar, estava trancado. O trabuco já estava pendurado no ombro, à bandoleira. Todo herói dorme o sono dos justos.

No dia seguinte comentei com um conhecido que havia espantado um ladrão de galinha. Ele deu uma risadinha e matou a charada. Ladrão de galinha, nada! Você espantou o Polaquinho. Ou alguém que ele deixou ir trepar naquela casinha. O pessoal usa aquela pra comer a mulherada, você não sabia? A cidade toda sabia. Para o azar do Polaquinho e dos seus convidados, eu não sabia. Ninguém me avisara.

Enquanto morei lá as galinhas não mais foram incomodadas nos seus sonos. 

Uma festa de igreja

Eu morei em São José dos Pinhais, hoje apelidada de cidade metropolitana da Grande Curitiba. Uma coisa boa era quando a Prefeitura limpava a valeta que cortava duas quadras defronte à Igreja Matriz para o churrasco comunitário. Eu morava a uns 100 metros do local. No dia seguinte todo mundo sentia as queimaduras nas pontas dos dedos polegar e indicador. Já pensaram estes dois dedos fora de serviço?

A cidade era pequena; se escorregasse no centro da cidade iria para nos sitiozinhos com as suas hortas bem cuidadas. Sentia-se morar no sítio e na cidade ao mesmo tempo. Um ambiente rural-urbano. Diferente de Morretes em que o rural e o urbano eram claramente delimitados.

As casas tinham, todas elas um quintal que ia até o outro lado da quadra, com as suas hortas, galinheiros e uma coberta, alguns com um compartimento fechado a guisa de depósito. Ali se armazenava a lenha, as ferramentas agrícolas de uso na horta e as sacas de serragem (pó da serra).

Havia os meninos, com carrinhos de mão, que forneciam serragem para o fogão. Colocava-se uma garrafa na boca principal do fogão e ia-se colocando a serragem em volta e socando, até completar toda a parte de queimar a lenha. Entre esta parte e a de baixo havia uma grelha de ferro que permitia a passagem da cinza para o seu depósito. Para que a serragem não escorresse por esta grelha, ela ficava sobre uma folha de papel.

Depois de toda a serragem socada, tirava-se a garrafa e acendia o fogo no espaço por ela formado. O ar começava a circular forçado pela sucção de ar da chaminé. “Tinha-se fogo”, na verdade um braseiro, que permitia fazer o café da manhã e o almoço. À tarde fazia-se o mesmo para o jantar. No inverno todas as portas internas da casa eram abertas para que o fogão servisse como aquecedor.

E o forno de pão! Ficava no fundo do quintal, sob um telheiro. O fogo era aceso enquanto a massa era feita, batida e deixada para crescer. No inverno o calor do fogão ajudava para acelerar o crescimento do pão, do cuque, do chineque. Dava tempo para consertar a galinha para ser assada. Uma galinha criada no quintal. Depenada com água quente, num latão sobre a chapa do fogão.  

Na transgenitalização galinácea, no Paraná frango vira galinha e aqui em São Paulo a galinha vira frango. Consertar a galinha era prepará-la para assar, cozinhar, etc. Na verdade desconserta, desmancha. Ah, estes regionalismos paranaenses!

Tempo bom! Bem, o passado sempre é bom, melhor que o agora.

Esta introdução é para montar a imagem para falar das festas de igreja na periferia das cidades. Estas festas de igreja são as quermesses aqui de São Paulo.

As festas de igreja festejavam o padroeiro do lugar, organizadas pelos festeiros do local. Ela era antecedida pelas novenas, cada uma dela com um “patrocinador” e comandada pelo capelão da igrejinha.

A festa iniciava com a missa, os foguetes, e todas as demonstrações de religiosidades.  E era quando o vigário, a que estava subordinada a capela, realizava a desobriga. Batizava e crismava as crianças, casava os ajuntados, realizava bênçãos. Tudo que precisasse de uma benção.  

A quermesse, na verdade, é o bazar ou a feira beneficente, com leilão de prendas, depois das cerimônias religiosas. E é aí que se desenvolvia a teojogatina. Todos os tipos de jogos. Um dos jogos era o leilão de prendas, mas a maior atração era a roleta (não maliciem).

Girava a roleta com toda a força e ela era girando, girando, até parar em um número. Era o momento de maior emoção entre os que compravam os cartões e os que torciam para alguém.
Os cerimoniais religiosos de uma festa de igreja tinham um caráter secundário. O que era importante era o congraçamento, os encontros, as fofocas. O churrasco comunitário que falei acima tinha a mesma finalidade.

Numa das festas havia uma galinha assada. Assada num forno a lenha. Deliciosa! Proseei com os meus botões e chegamos à conclusão que eu deveria “ganhar” aquela galinha. Estava “boludo”. Cheguei ao balcão e pedi: quero comprar a cartela inteira deste frango. A pessoa que me atendeu exclamou: BarbaridadE! Já vendi uma! O paranaense acentua o "e" final e fala de forma exclamativa. Então mE dá! (nesta época fui mandado - por castigo - trabalhar no Aeroporto de Afonso Pena, que fica no município de São José dos Pinhais. E o meu falar paranaense voltou).  Ma che barbaridade! Vai ter correr a roleta! (Ma che! Vício da italianada). 

A São José dos Pinhais é uma área de colonização italiana). Então roda logo! Quero comer esta galinha! A paúra começou a se avizinhar. Os meus botões me alertaram. Se il figlio de un porco tirar a galinha? Porco Dio. Putano! O cara que comprou o bilhete foi sorteado e eu, com 19 cartões, com 95 números, nas mãos e eu a ver navios. Barbaridade!

Provavelmente o sortudo era mais temente a Deus do que eu.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A vida, a morte e as visagens.




Todos (ou quase todos) os povos constroem um mundo sobrenatural paralelo e complementar ao mundo natural ou físico em que vivemos. O mundo sobrenatural é construído como um modelo e uma explicação deste nosso mundo. Lá está aquele que “nos criou”, o nosso herói civilizador, que no nosso mundo ocidental chamamos de Deus. Criamos um mundo sobrenatural para que explique o que antecede e o que sucede a este nosso mundo natural.


Os índios guarani, por exemplo, dizem que quando nasce uma criança ela “é governada” por um espírito telúrico. A partir do momento em que começa a compreender o mundo em sua volta, significa que uma alma divina, Ñé é, a fala, começa a se manifestar, “tomando conta do corpo”.  Quando o indivíduo morre o espírito telúrico (Angüery) fica por aqui e a alma divina volta de onde veio. A sua volta, porém, é cheia de peripécias, como uma corrida de obstáculos.

Há até uma encruzilhada, reedição do caminho largo e do caminho estreito da crença de algumas denominações evangélicas cristãs. O caminho largo é o caminho da “perdição” e o estreito da bem-aventurança. Há um “guarda” para dizer qual caminho deve ser tomado. É a ideia da dualidade da alma.

O que interessa para nós é a crença de que o mundo natural (ou físico) é povoado por seres não naturais, habitantes de um dos inúmeros níveis do mundo sobrenatural. Aqui, a dualidade mundo natural, ou profano, e o mundo sobrenatural ou sagrado. Os seres não naturais são classificados desde os mais impuros, as  almas penadas, até os mais puros, relacionados com o paraíso, onde está Deus, foco principal das crenças.

Mary Douglas, uma antropóloga britânica nos ensinou que o corpo é a metáfora da sociedade. Construímos a nossa sociedade a partir das nossas compreensões a respeito do nosso corpo. Da mesma forma, podemos dizer que o mundo natural é a metáfora do mundo sobrenatural. O que temos aqui tem lá de forma organizada.

O nascimento e a morte são os pontos de contato entre o mundo natural e o mundo sobrenatural (ou sagrado), respectivamente de alegria e de tristeza. Estes momentos são conceituados e re-conceituados teologicamente pelas mais diversas denominações religiosas, como tentativas de uniformização de ideias religiosas.

A morte é o nosso grande problema. Cada um de nós é uma dualidade: ser biológico e ser social. O ser biológico é o que fenece; o ser social sobrevive. Continua sendo o pai, a mãe, o filho, a filha, o historiador, etc. Segundo as nossas crenças quem sobrevive é a alma. Ou melhor, a imaterialidade sobrevive ao corpo e vai viver no mundo sagrado.

Este mundo sobrenatural – o sagrado - é obra nossa e temos para com ele uma atitude dúbia e contraditória: ao mesmo tempo em que nos consideramos suas criaturas, agimos como se o mundo sagrado fosse nossa criatura. Criamos rezas, ritos, etc., para sujeitá-lo e moldá-lo aos nossos interesses. Criamos as nossas crenças e elegemos representantes para que nos defendam delas. Como a complexidade do mundo é muito grande e vai além do conhecimento para ordená-lo, passamos a considerar como uma manifestação do mundo sobrenatural tudo aquilo que acontece e não conhecemos.  

Elegemos locais de segurança e locais abertos às manifestações sobrenaturais.

As Igrejas, que reúnem os administradores das relações (padres, pastores, etc.) entre estes dois mundos, são locais seguros. Valdinho contou que um dia foi abrir a igreja, escutou barulhos e correu para o Pe. Camargo:

 - seu Padre, tem fantasmas atrás do altar!

 - Ora, meu filho, fantasma não entra na casa de Deus, respondeu o Padre no seu mais alto saber teológico. Eram ratos, disseram-lhe.

Os espaços do lado de fora da Igreja são os espaços de livre manifestação dos fantasmas...  

Os fantasmas, contam os entendidos, têm uma fisionomia esquelética. Uma vez eu vi um homem com fisionomia de fantasma. Estava defronte à porta da torre. Foi logo após de ter quase incendiado um altar. Seria castigo? Mas do lado de fora da igreja. Disseram-me depois que era um tuberculoso. Nunca mais o vi. Será que alguém viu o “fantasma” que eu vi? Ou será que eu vi algum fantasma?

Os fantasmas não andam sob a luz do sol. Começam a aparecer quando o sol ultrapassa o poente. Meu pai foi muito namorador, mas deixava claro que isto era antes de conhecer a minha mãe. Tinha uma namorada no Porto de Cima (distrito de Morretes) e voltava antes da velinha aparecer na reta (de 6 km que libava o Porto com a cidade).

Numa determinada noite a eguinha estava passarinheira. Nunca fora. Era rápida e boa de raia. Não havia parelha para ela. Mas naquele dia não sentia as cócegas das esporas e começava corcovear. Até que ele viu a vela acesa seguir o seu rumo. Nem sei se ele deixou de namorar no Porto, ou mudou o horário para não andar à noite.

...

O cemitério é um local aberto e livre para as manifestações fantasmagóricas.

O cemitério de Morretes foi iluminado e não havia fantasma que se atrevesse a aparecer com tantas luzes. Agora nem tanto, pois roubaram alguns holofotes. Bom para alguns fantasmas aparecerem.

Valdinho contou no almoço dos adolescentes do início da década de 50, que o filho de um nosso amigo comum, foi ao Central e voltou ao anoitecer. No lusco-fusco, acabou a gasolina defronte ao Cemitério. Ao descer do carro olhou para trás viu uma fantasminha pré-adolescente dentro do cemitério, com o rosto encostado nas grades, olhando para fora. Quando ele ia iniciar a carreira, deixando carro e tudo mais para trás, notou que a menina não era fantasma, mas acompanhante de um grupo de umbandista que fazia despacho no cruzeiro. O cruzeiro é uma cruz no centro do cemitério onde as pessoas ascendem velas para as almas e para os seus santos de devoção.

O rapaz recomendou que antes de correr procurasse  observar se havia motivos para uma desabalada carreira...

Mas nem todos têm tempo para isto. Foi o caso de Hamilton Faria desandou a correr de uma “visagem”. Mas também não era fantasma. Marquinhos costumava ir ao cemitério à noitinha quando chegava de Curitiba. Horário que Hamilton voltava da Usina, onde trabalhava. Em uma de suas passagens foi abordado por alguém que lhe “pediu fogo”. Era para acender as velas para poder sair do cemitério. Até então nunca correra com tanta velocidade. Era uma das brincadeiras de Marquinhos.

Como vemos, nem sempre há tempo para conhecer os motivos. O medo de visagens é maior que tudo. Beta que conte.

Eu fui criado no início da estrada do Central, que alguns chamavam de Rua do Cemitério. As mulheres das cidades pequenas colocam a ida ao cemitério como uma das suas obrigações semanais. Para evitar a canícula morretense iam bem cedo ou à tardinha. Nós, moradores da rua, conhecíamos o horário de cada uma delas. Beta ia à tardinha.

O perigo para as visitantes da tarde era não sentir o tempo passar e o zelador fechar o cemitério. Naquele tempo, as únicas luzes do cemitério eram as velas deixadas pelas beatas ou o fogo fátuo. E como os fantasmas gostam de se manifestar no escuro...

As visitantes costumeiras tinham uma “rota de fuga”: os ferros soltos do gradil do cemitério para o caso de o zelador fechar os portões do cemitério.  Beta, ao invés de usar esta “saída” preferiu sair pela fresta deixada pela corrente que fechava o portão. Ficou presa. Já havia escurecido e com a roupa presa não conseguia se movimentar. Quando ouvia passos ou via algum vulto de passantes, pedia socorro.

- por favor, me tire daqui... Estou presa, quero sair daqui dentro!...

Quem ia se aventurar a soltar um fantasma? “Pernas para que te quero” era a senha para a corrida.

Cansada e amedrontada, com a sua voz enfraquecida, seus apelos se confundiam como a voz das almas penadas. Todas as mães que se prezam imitam a voz de alma penada para aquietar os seus filhos. Assim, quando as pessoas ouviam Beta pedir para sair do cemitério, com a voz já enfraquecida, fugiam em desabalada carreira.

Beta era tida como a cronista da cidade. Do seu posto no peitoril da janela, sabia o que acontecia em Morretes. Naquele entardecer Beta não apareceu na janela, como era seu costume. O que acontecera? Saíram à sua procura. Lá pelas nove da noite encontraram-na presa no portão Cemitério.

Por que não pediu ajuda de alguém, perguntaram-me? Eu pedia, mas os lazarentos saíam correndo. Nem uma alma de Deus me ajudou a sair...

O medo das almas penadas, de fantasma é muito grande.

Obs: No sábado, dia 16, data do centenário de nascimento da minha mãe, fui ao cemitério e passei pela sepultura de Beta. Resolvi republicar este texto em homenagem à ela, e com ela  relembro todos os parentes, amigos e conhecidos que nos deixaram.

sábado, 16 de outubro de 2010

Morretense paranalista



Fiquei três anos e dez meses sem ir a Morretes. Tenho um compromisso com os amigos – ou melhor, é um compromisso nosso – de formatura do ginásio de nos encontrarmos em dezembro para um almoço. Duas vezes proibido pelo trabalho e da última vez pelo médico. Mas agora com chuva ou vento, nem que chovesse canivete viria. Se minha mãe fosse viva completariam 100 anos neste 16 de outubro. No dia 14 de agosto foi o centenário de nascimento do meu pai.

Gosto de escrever sobre Morretes. Por diversas vezes chamam-me de saudosista, talvez por um menosprezo pela história, ou talvez por temor pelo tempo que passa. Falando dos que nos antecederam estaremos falando de nós mesmo, da nossa matéria-prima social. Somos seres que vivem uma história.

Quem vive em Morretes vê a sua história passar sem se dar conta dela, a não ser quando levam alguém à sua última morada. Eric tem me avisado: hoje fomos enterrar... enterrar alguém que viveu e teve uma história.

Morretes é o meu território. Esta gente que viveu comigo e que vive quando retorno para lá e o mundo físico em que vivemos constrói na memora de cada um uma imagem. Quantas vezes ao olhar o céu de São Paulo, ou o sol encoberto pelas nuvens, eu me pego “vendo” Morretes. E me sinto em Morretes quando vou a Boracéia ao olhar para as montanhas encobertas pelas nuvens e logo depois despidas delas, como se fossem as serras às eu me acostumei a ver desde pequeno.

Vou ao cemitério e lá estão as tumbas que guardam os restos mortais do meu pai e da minha mãe, de nonno e de nonna, do meu avô e da minha avó, dos meus tios e tias, dos meus tios avós e minhas tinhas avós. Vejo neles a minha ascendência, a minha história.

Nos meus retornos por vezes vejo este território como se fossem capítulos da minha história, cada capítulo um pouco diferente do anterior. Vejo pessoas que não conheço e que sou um desconhecido delas.

Certa vez eu comentei num dos meus textos a “queixa” de Adaulino: onde está a minha Morretes? A Morretes dele guri, que foi a minha Morretes. A nossa Morretes está na história. De quando ir a Curitiba era uma viagem e ir a São Paulo que precisava se despedir de todos os parentes e amigos.

Minha irmã comentou, nesta minha chegada, de “como é bom viver em Morretes”: as pessoas organizam excursões, fazem viagens turísticas de navio e em outros lugares turísticos. Organizam-em grupos de primeira, segunda e terceira idades e logo de quarta idade.

E aqui estou. Mas terei que voltar logo, pois a vida fez-me construir uma vida em outras plagas. As obrigações me chamam. Eu acho que me tornei um morretense “paranalista” uma mistura de paranaense e paulista, apesar do meu ¼ de vida paranaense e ¾ de vida paulista, mas foi em Morretes que eu vi o mundo pela primeira vez. 

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Por que e como me tornei um antropólogo




Este texto foi publicado em http://mcherobim.multiply.com/journal/item/6/6 em 29 de julho de 2007 às 14:39.



Há quase duas décadas precisei escrever um memorial e nele mostrar porque e como segui a carreira na Antropologia. Claro que alinhei uma série de fatos, verdadeiros, é claro, mas talvez não suficientes para dar uma guinada na vida em direção da Antropologia. Mas existiu um fato concreto, real, que me fez pensar: é isto que eu vou ser.

 Estas lembranças voltaram à minha memória porque no início de agosto fará dois anos que o meu amigo Almir faleceu (este texto foi escrito em julho de 2007), Ele foi o autor de uma interferência nos meus projetos de vida, em me tornar um professor (como comento lá no final).
 Eu era sargento radiotelegrafista da FAB, com um ano na graduação militar, nos meus 22 anos, trabalhava numa estação de aerovias em Xavantina, a atual Nova Xavantina, Mato Grosso. Faz tempo!
 Cheguei lá no dia em que os revoltosos de Aragarças fugiram para a Bolívia. As tropas do Exército acabaram com o estoque de comida. Com a saída do Exército todos os vôos ficaram proibidos na região e como era época das chuvas, ficamos isolados. A nossa alimentação passou a se constituir de arroz com abóbora num dia, abóbora com arroz no outro e assim, intercalando o cardápio, passamos cerca de dois meses.
 Quando os aviões do Correio Aéreo Nacional voltaram a voar na sua linha Rio de Janeiro – Santarém, pudemos sentir como era bom adoçar o café e salgar a comida! Abóbora? ...levei uns 10 anos sem comer.
 Num dos primeiros vôos do CAN (Correio Aéreo Nacional) havia entre os passageiros um homem, de uns trinta anos, alto, loiro, cabelo cortado curtinho, falando inglês. Perguntei para um sargento da tripulação:
  - quem é este cara?
 - um antropólogo.
 - Antropólogo? O que é isto? O que faz? Quis saber.
 - sei lá!  Ele vai numa aldeia de índios, faz perguntas, anota, e depois volta para a terra dele e escreve um livro.
 Bah! Pensei com os meus botões. É isto! Vou estudar antropologia, venho para cá, fico numa boa, não vou ter tenente, capitão, coronel, brigadeiro para me torrarem a paciência com as suas ordens... eu me dou bem com os Villas Boas, foram amigos do Lourival (um primo do meu avô, oficial do Exército e que participou da Expedição Roncador Xingu)... Vou ser antropólogo...
 Quando falei dos meus planos para alguns  amigos eles me perguntavam o que era antropologia, o que fazia...  ficavam sem respostas, pois eu também não sabia. Se dissesse que era para voltar para o Xingu iriam me chamar de doido.
 Como andei atropelando os regulamentos militares em Xavantina transferiram-me para Curitiba para trabalhar com dois suboficiais “disciplinadores”. Por minha sorte um deles foi aluno da minha mãe, em Morretes.
 E aí começou a minha busca para saber onde poderia estudar Antropologia. Indicaram-me o curso de História Natural. Mas era Antropologia Física. Até então esta especialização não me dizia nada. Quando descobri o que era Antropologia Física, já aluno do curso de História Natural, senti que não era aquilo que me levaria para o Xingu. Indicaram-me, então, um curso da Universidade Católica, Sociologia, Política e Administração Pública.
 Por alguma coisa que eu talvez tenha feito, a esquerda começou a me chamar de “gorila” e a direita, após o golpe achavam que eu era comunista. Por sorte não tive tempo de ter crise de identidade política e o bom senso me indicou uma transferência rápida. Voltei para São Paulo. Terminei o meu curso na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e em seguida entrei para o Pós de Antropologia na Universidade de São Paulo.
 Sentia que o meu Projeto estava tomando forma. E é aí que Almir entra na jogada.
 Almir era aluno de um dos cursos que eu fazia e era diretor do Centro de Ciências Humanas da OMEC, agora Universidade de Mogi das Cruzes. Convidou-me para lecionar e eu aceitei na hora, pois até então eu consertava TV para complementar o meu ganho na FAB. As instituições de ensino superior privadas, no final da década de sessenta, início da de setenta pagavam relativamente bem e eu me enchi de aulas. Pude assim me livrar de todos os compromissos financeiros, comprar um carro e uma casa. E ir ao Xingu. Mas a FAB começou me atrapalhar. O final da década de sessenta e início de década setenta, com repressão política, muitos sargentos especialistas sendo presos, o entusiasmo de ser "fabiano" foi esfriando. Deixou de ser uma carreira, transformando-se num simples emprego. 

Mas ainda na FAB retornei ao Xingu. Ao passar por Xavantina, a última escala para chegar ao Xingu. Ainda ao descer do avião lembrei do diálogo de onze anos passados. Um ano depois deixei a FAB.
Os índios Guarani do litoral paulista "roubaram-me" do Xingu, pois naquele momento já desenvolvia um projeto de pesquisas etnológicas entre os índios Guarani. 

Este foi o início de uma vida de muitas décadas.

Em tempo: no final do expediente das organizações militares é lido ("cantado") um Boletim (Boletim Ordinário), uma espécie de Diário Oficial. Num deles foi publicado que todos os militares que tivessem cursos civis, em qualquer nível, deveriam registrar estes cursos. E eu havia feito o curso de Sociologia. Informei e "cantou em Boletim".

Dois ou três dias depois eu me encontrei com um oficial e tivemos o seguinte diálogo:
- Cherobim, você fez o curso de socialismo?
- Não, fiz o curso de Sociologia. Se saiu errado vou corrigir.
- É que para mim socialismo e sociologia é tudo a mesma coisa.
- Mesma coisa, como?
- São todos subversivos. 
- Subversivos? 
- Claro, estão sendo cassados.
- Bem, se este for o parâmetro, muito mais militares foram cassados que sociólogos. Neste caso as escolas militares são subversivas. O Senhor não acha?

E assim encerrou a nossa conversa.

Este diálogo mostra bem como eram os ânimos no período pós AI5.


segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O mboi-tatá em Bateias




A minha mãe teve um AVC em 1953. Foi o ano em que terminei o ginásio. Em 1954 fui estudar em Curitiba e cursei o primeiro no do então curso científico um dos cursos secundários que havia. Com a doença da minha mãe, o pai teve que parar de viajar. Ele era caminhoneiro. Mas o caminhão era o seu meio de vida e colocou um motorista. Terminei o primeiro ano e retornei para trabalhar junto com o meu pai; podia viajar dentro do Estado do Paraná com uma carteira de habilitação provisória do o Departamento de Trânsito fornecia para  quem tivesse 17 anos. Viajei durante todo o ano de 1955 e em 1956 ingressei na Aeronáutica para fazer o serviço militar.
Todas as estradas eram de terra  e o governador que entrou na época, intitulou-se o construtor de estradas, principalmente ligando o Norte do Paraná com o sul. Muitos caminhoneiros foram trabalhar no transporte de terra onde as estradas estavam sendo construídas. As empresas também terceirizavam máquinas, tratores, etc.
Conversei com o meu pai para que logo que completasse o serviço militar venderia o caminhão e adquiriria um trator de esteira para trabalhar na aberturas de estradas. Logo após terminar o período de instrução militar, de “ter passado pronto” e “jurado bandeira” houve inscrições para cursos de cabe e dentre eles um de sistemas hidráulicos. Encaixava nos meus interesses.
O curso seria realizado do Parque de Aeronáutica de São Paulo e ficamos à espera de um avião que nos traria para cá. Num final de semana resolvei ir a Morretes e esta viagem coincidiu com a chegada do avião. E eu perdi a viagem e o curso.
Como havia vagas num curso de cabos radiotelegrafistas auxiliares, fiz este curso e no final também me trouxe para São Paulo. Mas esta é outra história para outro momento.
O Paraná atual é bem diferente do Paraná que deixei há 53 anos. Não só o Paraná. O mundo mudou.
O caminhão do meu pai era um caminhão tanque. Transportávamos combustível entre Paranaguá e Londrina e algumas viagens esporádicas para o Oeste do Paraná, Santa Catarina e “entregas” no Norte a partir de Londrina.
O caminho “natural” para o Norte era pela Estrada do Cerne. Saía de Curitiba por Santa Felicidade, Bateias e mais 104 km de morros. Eram os Morros, como os motoristas tratavam esta estrada.
Outro dia tentei reconstruir esta viagem através do Google Earth. Não consegui. Queria contar a história do boi-tatá que vi num pasto ao longo do restaurante que parávamos ao anoitecer. A “entrada” era uma minestrone acompanhada com um bom naco de polenta mergulhada. Feijão chumbinho, arroz, (mais) polenta e frango completavam o mangiare.
Numa tarde, no lusco-fusco da noite, entrou alguém apavorado, gritando para se esconder que havia mboi-tatá no pasto. Corri em sentido contrário de todo mundo para ver o fenômeno. Consegui ver, mas muito pouco, porque me arrastaram para dentro. Chamaram-me de louco e não havia meio de acreditarem nas aulas de ciências do Dr. Albino, professor do ginásio em Morretes.
Bem, contei a história. A segunda parte, de descrever a viagem meio séculos depois, ficará para mais tarde quando passar por lá de máquina fotográfica em punho, GPS e outras “brincadeiras” que as novas tecnologias colocaram à nossa disposição.

domingo, 1 de agosto de 2010

Ler e escrever. Para início de conversa


Eu me inscrevi no Multiply há certo tempo[1]; não me lembro se convidado por alguém ou "cai" por aqui por um dos tantos caminhos que navegação da Internet nos oferece. De uns tempos para cá comecei a receber convite e informação de minha amiga Itamara.
Eu tenho dois prazeres na vida. Na verdade, tenho muitos. Mas aqui eu me restringirei a dois: ler e escrever. Não é nesta ordem, e até pode ser, pois eu não sei qual seria a ordem de preferência. Da minha preferência.
Ler é cômodo. Paramos e continuamos quando bem entendemos. Lemos diferentemente de acordo com o assunto. Por vezes começamos da primeira página e vamos até o final; outras vezes, como nos livros técnicos, vamos lendo aos pedaços como se fossem manuais; algumas vezes transformamos o livro numa obra de referência, pois a nossa leitura foi aquela chamada "leitura transversal". Eu acho que são estes livros que nos marcam mais presença, sem nunca os ler como mandam os bons modos. Mas existem aqueles que nunca terminamos. Porque para nós são os melhores; terminar uma leitura de um livro é como colocá-los na (nossa) história, no passado; aqueles que nunca terminamos é porque queremos que estejam sempre no presente.
O final de uma leitura é o momento formal de se colocar o livro na nossa história. Mesmo que não se confesse, ele vai partilhar da poeira das prateleiras de nossas estantes. Provoca um complexo de culpa; para aliviar esta culpa, por vezes, vou lá folheio, ou uma olhada em alguns tópicos, fecho e devolvo à prateleira. Eu faço isto com as teses, dissertações e trabalhos de término de curso que orientei ou examinei. Estes trabalhos têm um problema: o da leitura compulsória, por dever de ofício. Mas ao fazer isto, lembro de pessoas. Com alguns mantenho contato e outros sumiram. Por onde andarão? Talvez - ou na certeza - mergulhados nas suas tantas obrigações. Ali estão anotadas algumas observações, importantes no momento da argüição que o tempo se obriga em diluir a sua importância.
A Internet, com a possibilidade de se comunicar através de e-mails, site de relacionamentos do tipo do orkut, gazzag e outros, messengers, etc., e com o nosso nome nos sites de busca, fazem com que sejamos encontrados. Estes encontros vêm com algumas lembranças: lembra-se do que você falou? Puxa, aquela sua observação... E por ai vai... Temos que reconhecer que o professor é uma pessoa pública.
Aquela leitura chata, empanturrada  de expressões típicas de um snobismo acadêmico, traz os seus bons frutos e médio ou longo prazo, não pelo que está escrito, mas pelas pessoas que estão por trás daquilo que lemos.
E escrever? Quando entrei no pós o meu orientador me advertiu: você escreve em italiano, mas com palavras portuguesas. Eu? O que é isto? retrucava em pensamento, não existe brasileiro mais legítimo que eu. Até quando eu o acompanhei a Pedrinhas, um núcleo de colonização italiana, hoje município do oeste paulista. Ele não me levou para um confronto étnico, mas porque tinha idéia que eu continuasse o trabalho, e que isto fosse feito por um italiano. Na verdade um "italiano", ou  alguém italianado.
Esta idéia de "autenticidade brasileira" foi para o brejo. Nunca havia me sentido um italiano e me via não sendo mais o brasileiro que imaginava ser. Que diabo eu sou? Como escrevo "em italiano" se não sou italiano, mas como uso a estrutura italiana se sou brasileiro? Mandei às favas esta questão de identidade e resolvi partir do que eu era. Mas era o que, se nem eu sabia? Ah, sou isto! O negócio é soltar no "ponto morto" (posteriormente, "na banguela") e ver onde vai parar.
Por que eu era italianado? Eu nasci em Morretes, onde foi criada a primeira colônia de italianos do Paraná e eu nasci e me criei em um dos seus núcleos, o do Central. Revendo o passado, havia uma coesão étnica, aproximando-os territorialmente, apesar de os núcleos estarem separados no espaço físico, na prática religiosa, nos interesses políticos, no futebol, etc.  Portanto, não havia jeito de ser diferente.
Naquele momento eu tinha duas coisas pela frente, essenciais para terminar o meu pós graduação: continuar as minhas pesquisas juntos aos guarani[2] () e aprender a escrever, é claro.
Quando fui aluno da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo adquiri um anuário antigo da escola. Numa de suas partes ensinava a escrever. E lá havia uma orientação: a linguagem cientifica deve ser redigida em frases curtas e na ordem direta. Eureka! É isto, pensei. E comecei a colocar em prática.  Partir daí eu me tornei um leitor de manuais de redação. Numa das leituras havia um conselho: respeite o leitor: use palavras conhecidas para evitar  que o leitor leia o seu texto com um dicionário na mão.
A erudição com vocabulário rebuscado é uma forma de usar o segredo como forma de poder; a erudição desejada é aquela que torna inteligível ao leitor comum pensamentos muito elaborados. De transmitir ao leitor emoções através da palavra escrita. Este é um treinamento sem fim, mas que satisfaz a quem escreve.
Portanto, eu gosto de escrever, ou melhor, de treinar a escrever contando e comentando coisas. É o que pretendo fazer aqui. Mas somente poderei fazer isto com o auxílio dos meus eventuais leitores.



[1] Este texto também está publicado em http://mcherobim.multiply.com/journal/item/1/1 . Estou trazendo alguns textos de lá para cá.
[2] Não errei a concordância em número. Existe uma norma de grafia de nomes indígenas, segundo a qual eles são invariáveis em gênero e em número.