terça-feira, 3 de agosto de 2010

Por que e como me tornei um antropólogo




Este texto foi publicado em http://mcherobim.multiply.com/journal/item/6/6 em 29 de julho de 2007 às 14:39.



Há quase duas décadas precisei escrever um memorial e nele mostrar porque e como segui a carreira na Antropologia. Claro que alinhei uma série de fatos, verdadeiros, é claro, mas talvez não suficientes para dar uma guinada na vida em direção da Antropologia. Mas existiu um fato concreto, real, que me fez pensar: é isto que eu vou ser.

 Estas lembranças voltaram à minha memória porque no início de agosto fará dois anos que o meu amigo Almir faleceu (este texto foi escrito em julho de 2007), Ele foi o autor de uma interferência nos meus projetos de vida, em me tornar um professor (como comento lá no final).
 Eu era sargento radiotelegrafista da FAB, com um ano na graduação militar, nos meus 22 anos, trabalhava numa estação de aerovias em Xavantina, a atual Nova Xavantina, Mato Grosso. Faz tempo!
 Cheguei lá no dia em que os revoltosos de Aragarças fugiram para a Bolívia. As tropas do Exército acabaram com o estoque de comida. Com a saída do Exército todos os vôos ficaram proibidos na região e como era época das chuvas, ficamos isolados. A nossa alimentação passou a se constituir de arroz com abóbora num dia, abóbora com arroz no outro e assim, intercalando o cardápio, passamos cerca de dois meses.
 Quando os aviões do Correio Aéreo Nacional voltaram a voar na sua linha Rio de Janeiro – Santarém, pudemos sentir como era bom adoçar o café e salgar a comida! Abóbora? ...levei uns 10 anos sem comer.
 Num dos primeiros vôos do CAN (Correio Aéreo Nacional) havia entre os passageiros um homem, de uns trinta anos, alto, loiro, cabelo cortado curtinho, falando inglês. Perguntei para um sargento da tripulação:
  - quem é este cara?
 - um antropólogo.
 - Antropólogo? O que é isto? O que faz? Quis saber.
 - sei lá!  Ele vai numa aldeia de índios, faz perguntas, anota, e depois volta para a terra dele e escreve um livro.
 Bah! Pensei com os meus botões. É isto! Vou estudar antropologia, venho para cá, fico numa boa, não vou ter tenente, capitão, coronel, brigadeiro para me torrarem a paciência com as suas ordens... eu me dou bem com os Villas Boas, foram amigos do Lourival (um primo do meu avô, oficial do Exército e que participou da Expedição Roncador Xingu)... Vou ser antropólogo...
 Quando falei dos meus planos para alguns  amigos eles me perguntavam o que era antropologia, o que fazia...  ficavam sem respostas, pois eu também não sabia. Se dissesse que era para voltar para o Xingu iriam me chamar de doido.
 Como andei atropelando os regulamentos militares em Xavantina transferiram-me para Curitiba para trabalhar com dois suboficiais “disciplinadores”. Por minha sorte um deles foi aluno da minha mãe, em Morretes.
 E aí começou a minha busca para saber onde poderia estudar Antropologia. Indicaram-me o curso de História Natural. Mas era Antropologia Física. Até então esta especialização não me dizia nada. Quando descobri o que era Antropologia Física, já aluno do curso de História Natural, senti que não era aquilo que me levaria para o Xingu. Indicaram-me, então, um curso da Universidade Católica, Sociologia, Política e Administração Pública.
 Por alguma coisa que eu talvez tenha feito, a esquerda começou a me chamar de “gorila” e a direita, após o golpe achavam que eu era comunista. Por sorte não tive tempo de ter crise de identidade política e o bom senso me indicou uma transferência rápida. Voltei para São Paulo. Terminei o meu curso na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e em seguida entrei para o Pós de Antropologia na Universidade de São Paulo.
 Sentia que o meu Projeto estava tomando forma. E é aí que Almir entra na jogada.
 Almir era aluno de um dos cursos que eu fazia e era diretor do Centro de Ciências Humanas da OMEC, agora Universidade de Mogi das Cruzes. Convidou-me para lecionar e eu aceitei na hora, pois até então eu consertava TV para complementar o meu ganho na FAB. As instituições de ensino superior privadas, no final da década de sessenta, início da de setenta pagavam relativamente bem e eu me enchi de aulas. Pude assim me livrar de todos os compromissos financeiros, comprar um carro e uma casa. E ir ao Xingu. Mas a FAB começou me atrapalhar. O final da década de sessenta e início de década setenta, com repressão política, muitos sargentos especialistas sendo presos, o entusiasmo de ser "fabiano" foi esfriando. Deixou de ser uma carreira, transformando-se num simples emprego. 

Mas ainda na FAB retornei ao Xingu. Ao passar por Xavantina, a última escala para chegar ao Xingu. Ainda ao descer do avião lembrei do diálogo de onze anos passados. Um ano depois deixei a FAB.
Os índios Guarani do litoral paulista "roubaram-me" do Xingu, pois naquele momento já desenvolvia um projeto de pesquisas etnológicas entre os índios Guarani. 

Este foi o início de uma vida de muitas décadas.

Em tempo: no final do expediente das organizações militares é lido ("cantado") um Boletim (Boletim Ordinário), uma espécie de Diário Oficial. Num deles foi publicado que todos os militares que tivessem cursos civis, em qualquer nível, deveriam registrar estes cursos. E eu havia feito o curso de Sociologia. Informei e "cantou em Boletim".

Dois ou três dias depois eu me encontrei com um oficial e tivemos o seguinte diálogo:
- Cherobim, você fez o curso de socialismo?
- Não, fiz o curso de Sociologia. Se saiu errado vou corrigir.
- É que para mim socialismo e sociologia é tudo a mesma coisa.
- Mesma coisa, como?
- São todos subversivos. 
- Subversivos? 
- Claro, estão sendo cassados.
- Bem, se este for o parâmetro, muito mais militares foram cassados que sociólogos. Neste caso as escolas militares são subversivas. O Senhor não acha?

E assim encerrou a nossa conversa.

Este diálogo mostra bem como eram os ânimos no período pós AI5.


segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O mboi-tatá em Bateias




A minha mãe teve um AVC em 1953. Foi o ano em que terminei o ginásio. Em 1954 fui estudar em Curitiba e cursei o primeiro no do então curso científico um dos cursos secundários que havia. Com a doença da minha mãe, o pai teve que parar de viajar. Ele era caminhoneiro. Mas o caminhão era o seu meio de vida e colocou um motorista. Terminei o primeiro ano e retornei para trabalhar junto com o meu pai; podia viajar dentro do Estado do Paraná com uma carteira de habilitação provisória do o Departamento de Trânsito fornecia para  quem tivesse 17 anos. Viajei durante todo o ano de 1955 e em 1956 ingressei na Aeronáutica para fazer o serviço militar.
Todas as estradas eram de terra  e o governador que entrou na época, intitulou-se o construtor de estradas, principalmente ligando o Norte do Paraná com o sul. Muitos caminhoneiros foram trabalhar no transporte de terra onde as estradas estavam sendo construídas. As empresas também terceirizavam máquinas, tratores, etc.
Conversei com o meu pai para que logo que completasse o serviço militar venderia o caminhão e adquiriria um trator de esteira para trabalhar na aberturas de estradas. Logo após terminar o período de instrução militar, de “ter passado pronto” e “jurado bandeira” houve inscrições para cursos de cabe e dentre eles um de sistemas hidráulicos. Encaixava nos meus interesses.
O curso seria realizado do Parque de Aeronáutica de São Paulo e ficamos à espera de um avião que nos traria para cá. Num final de semana resolvei ir a Morretes e esta viagem coincidiu com a chegada do avião. E eu perdi a viagem e o curso.
Como havia vagas num curso de cabos radiotelegrafistas auxiliares, fiz este curso e no final também me trouxe para São Paulo. Mas esta é outra história para outro momento.
O Paraná atual é bem diferente do Paraná que deixei há 53 anos. Não só o Paraná. O mundo mudou.
O caminhão do meu pai era um caminhão tanque. Transportávamos combustível entre Paranaguá e Londrina e algumas viagens esporádicas para o Oeste do Paraná, Santa Catarina e “entregas” no Norte a partir de Londrina.
O caminho “natural” para o Norte era pela Estrada do Cerne. Saía de Curitiba por Santa Felicidade, Bateias e mais 104 km de morros. Eram os Morros, como os motoristas tratavam esta estrada.
Outro dia tentei reconstruir esta viagem através do Google Earth. Não consegui. Queria contar a história do boi-tatá que vi num pasto ao longo do restaurante que parávamos ao anoitecer. A “entrada” era uma minestrone acompanhada com um bom naco de polenta mergulhada. Feijão chumbinho, arroz, (mais) polenta e frango completavam o mangiare.
Numa tarde, no lusco-fusco da noite, entrou alguém apavorado, gritando para se esconder que havia mboi-tatá no pasto. Corri em sentido contrário de todo mundo para ver o fenômeno. Consegui ver, mas muito pouco, porque me arrastaram para dentro. Chamaram-me de louco e não havia meio de acreditarem nas aulas de ciências do Dr. Albino, professor do ginásio em Morretes.
Bem, contei a história. A segunda parte, de descrever a viagem meio séculos depois, ficará para mais tarde quando passar por lá de máquina fotográfica em punho, GPS e outras “brincadeiras” que as novas tecnologias colocaram à nossa disposição.

domingo, 1 de agosto de 2010

Ler e escrever. Para início de conversa


Eu me inscrevi no Multiply há certo tempo[1]; não me lembro se convidado por alguém ou "cai" por aqui por um dos tantos caminhos que navegação da Internet nos oferece. De uns tempos para cá comecei a receber convite e informação de minha amiga Itamara.
Eu tenho dois prazeres na vida. Na verdade, tenho muitos. Mas aqui eu me restringirei a dois: ler e escrever. Não é nesta ordem, e até pode ser, pois eu não sei qual seria a ordem de preferência. Da minha preferência.
Ler é cômodo. Paramos e continuamos quando bem entendemos. Lemos diferentemente de acordo com o assunto. Por vezes começamos da primeira página e vamos até o final; outras vezes, como nos livros técnicos, vamos lendo aos pedaços como se fossem manuais; algumas vezes transformamos o livro numa obra de referência, pois a nossa leitura foi aquela chamada "leitura transversal". Eu acho que são estes livros que nos marcam mais presença, sem nunca os ler como mandam os bons modos. Mas existem aqueles que nunca terminamos. Porque para nós são os melhores; terminar uma leitura de um livro é como colocá-los na (nossa) história, no passado; aqueles que nunca terminamos é porque queremos que estejam sempre no presente.
O final de uma leitura é o momento formal de se colocar o livro na nossa história. Mesmo que não se confesse, ele vai partilhar da poeira das prateleiras de nossas estantes. Provoca um complexo de culpa; para aliviar esta culpa, por vezes, vou lá folheio, ou uma olhada em alguns tópicos, fecho e devolvo à prateleira. Eu faço isto com as teses, dissertações e trabalhos de término de curso que orientei ou examinei. Estes trabalhos têm um problema: o da leitura compulsória, por dever de ofício. Mas ao fazer isto, lembro de pessoas. Com alguns mantenho contato e outros sumiram. Por onde andarão? Talvez - ou na certeza - mergulhados nas suas tantas obrigações. Ali estão anotadas algumas observações, importantes no momento da argüição que o tempo se obriga em diluir a sua importância.
A Internet, com a possibilidade de se comunicar através de e-mails, site de relacionamentos do tipo do orkut, gazzag e outros, messengers, etc., e com o nosso nome nos sites de busca, fazem com que sejamos encontrados. Estes encontros vêm com algumas lembranças: lembra-se do que você falou? Puxa, aquela sua observação... E por ai vai... Temos que reconhecer que o professor é uma pessoa pública.
Aquela leitura chata, empanturrada  de expressões típicas de um snobismo acadêmico, traz os seus bons frutos e médio ou longo prazo, não pelo que está escrito, mas pelas pessoas que estão por trás daquilo que lemos.
E escrever? Quando entrei no pós o meu orientador me advertiu: você escreve em italiano, mas com palavras portuguesas. Eu? O que é isto? retrucava em pensamento, não existe brasileiro mais legítimo que eu. Até quando eu o acompanhei a Pedrinhas, um núcleo de colonização italiana, hoje município do oeste paulista. Ele não me levou para um confronto étnico, mas porque tinha idéia que eu continuasse o trabalho, e que isto fosse feito por um italiano. Na verdade um "italiano", ou  alguém italianado.
Esta idéia de "autenticidade brasileira" foi para o brejo. Nunca havia me sentido um italiano e me via não sendo mais o brasileiro que imaginava ser. Que diabo eu sou? Como escrevo "em italiano" se não sou italiano, mas como uso a estrutura italiana se sou brasileiro? Mandei às favas esta questão de identidade e resolvi partir do que eu era. Mas era o que, se nem eu sabia? Ah, sou isto! O negócio é soltar no "ponto morto" (posteriormente, "na banguela") e ver onde vai parar.
Por que eu era italianado? Eu nasci em Morretes, onde foi criada a primeira colônia de italianos do Paraná e eu nasci e me criei em um dos seus núcleos, o do Central. Revendo o passado, havia uma coesão étnica, aproximando-os territorialmente, apesar de os núcleos estarem separados no espaço físico, na prática religiosa, nos interesses políticos, no futebol, etc.  Portanto, não havia jeito de ser diferente.
Naquele momento eu tinha duas coisas pela frente, essenciais para terminar o meu pós graduação: continuar as minhas pesquisas juntos aos guarani[2] () e aprender a escrever, é claro.
Quando fui aluno da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo adquiri um anuário antigo da escola. Numa de suas partes ensinava a escrever. E lá havia uma orientação: a linguagem cientifica deve ser redigida em frases curtas e na ordem direta. Eureka! É isto, pensei. E comecei a colocar em prática.  Partir daí eu me tornei um leitor de manuais de redação. Numa das leituras havia um conselho: respeite o leitor: use palavras conhecidas para evitar  que o leitor leia o seu texto com um dicionário na mão.
A erudição com vocabulário rebuscado é uma forma de usar o segredo como forma de poder; a erudição desejada é aquela que torna inteligível ao leitor comum pensamentos muito elaborados. De transmitir ao leitor emoções através da palavra escrita. Este é um treinamento sem fim, mas que satisfaz a quem escreve.
Portanto, eu gosto de escrever, ou melhor, de treinar a escrever contando e comentando coisas. É o que pretendo fazer aqui. Mas somente poderei fazer isto com o auxílio dos meus eventuais leitores.



[1] Este texto também está publicado em http://mcherobim.multiply.com/journal/item/1/1 . Estou trazendo alguns textos de lá para cá.
[2] Não errei a concordância em número. Existe uma norma de grafia de nomes indígenas, segundo a qual eles são invariáveis em gênero e em número.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Patudo

Patudo era o xodó de tio Almir, irmão da minha mãe. Era um potro heterodoxo; bom de montaria, um trote macio, mas também era um cavalo de tração. Puxava uma zorra cheia de cachos de banana – claro que morro abaixo – e não negava tempo ruim na carroça. A sua parelha tinha que ouvir um estalo de chicote para não deixar o Patudo puxar sozinho a carroça.

Tio Almir era o meu padrinho de crisma. Era ele que me levava e trazia do sítio do meu avô. Algumas vezes de bicicleta, outras vezes de carroça, mas o bom mesmo era montado no Patudo.

Patudo e a bicicleta não eram comuns. A sela era das melhores, compradas nas melhores selarias de Curitiba. Os pelegos de coro de carneiro, coloridos, os arreios com enfeites prateados, o culote e as perneiras tornavam o centro de atração das gurias por onde ele passava.

Patudo me fazia sonhar com uma montaria, um belo pelego, um poncho e um chapéu de aba larga. Meu pai tinha culpa no cartório, principalmente quando falava de eguinha de nonno, campeã da raias e de trote macio quando puxava a charrete. Era ela que nonno colocava na charrete para levar mamãe para as suas aulas na escola e foi ela que trouxe Dona Margarida, a parteira, quando nasci. “Porco Dio, guardar o cavalo onde, no seu quarto?” foi a resposta que recebi. Mas ganhei uma bicicleta. Foi a minha montaria. Levei um susto quando ele me mostrou a bicicleta na carroceria do caminhão, ao chegar de Curitiba.

A heterodoxia de Patudo provocava algumas surpresas. Claro que os meus tios Almir e Rubico  (Rubens) já conheciam as manias dele, mas muitas vezes fugia do controle. “Chegou a carroça dos Serôas...” comentava-se quando chegavam na cidade, tantas foram as vezes que a carroça disparou pela cidade. Na verdade era Patudo que iniciava a disparada. Era a segunda maior distração em Morretes. A primeira era quando fugia bois na cidade.

Era um misto de alegria (movimentava a cidade) e pavor (dois cavalos em disparada e descontrolados, puxando uma carroça com aros de metal sobre os paralepípedos que recentemente haviam caçado as ruas de Morretes). A alegria era a movimentação, um "diferente comum", como era o caso dos bois que fugiam.

Até que um dia fui passageiro da carroça em disparada.

Meu avô e meus tios resolveram fazer carvão. O sítio, no Pitinga, era rico em matéria-prima e o dinheiro do carvão financiava a abertura das roças de banana.

O meu avô era engenhoso; leu revistas, livros e não sei mais o quê, e descobriu projetos de forno de carvão. Naquele tempo não havia Internet e muito menos o Google. Nem TV. O primeiro rádio que chegou ao Pitinga foi montado por tio Almir, tarefa de um curso feito por correspondência pela National School. Muito chique! Era uma escola por correspondência na Califórnia, EUA. O curso era em português.

Como não havia luz no sítio, ele ia soldar em casa, na cidade. Mas a luz, fornecida pelo engenho da cachaça do Central era tão fraca que precisava ser auxiliada por um lampião. Não esquentava o ferro. Meu pai arrumou um maçarico e um ferro de solda pequeno que era utilizado para soldar radiador de carro.

Com a orientação de papai, vovô montou um dínamo (como se chamavam os alernadores dos carros) para carregar a bateria para alimentar o rádio. Toda esta peripécia permitia que a minha avó e o meu avô acompanhassem as aventuras e desventuras de Albetinho Limonta, Mãe Dolores, etc., da novela O Direito de Nascer pela rádio Nacional do Rio de Janeiro.

Bem, depois de estudar  projetos de fornos de carvão, vovô desenhou o seu e chamou Zebedeu,  o Bedeu, casado com Maria da Luz. Bedeu era lavrador, pedreiro e carpinteiro. Construía casas de madeira e de tijolos.

O forno era redondo e tinha uns 15 metros de diâmetro. Uma fornada fornecia cerca de 100 sacas de carvão e demora uns 15 dias para ficar pronto. Era um carvão muito bom e havia uma boa freguesia. Seu Lourencinho, dono de uma ferraria, era um deles.

Meus tios não gostavam que eu andasse com eles quando traziam carvão porque a poeira sujava muito. Para se ter uma idéia, em 1942 o meu pai foi buscar dois caminhões no Rio de Janeiro. Era época da guerra e a gasolina era racionada e os carros eram movidos a gasogênio. A viagem Morretes - Rio de Janeiro – Morretes demorou uns três meses. Ele contava que na volta hospedou-se num hotel em São Paulo. Tomou um banho e saiu com o outro motorista para fazer uma refeição. Ao retornar o porteiro não queria dar as chaves dos quartos, pois ali estavam hospedados “dois senhores de cor”. Não, eram eles antes de tomar banho.

Eu fui com eles no seu Lourencinho, pois era avô de Valdinho, meu amigo de infância. Era hora do almoço. Entregue o carvão subi na carroça com os meus tios e saíram em direção de casa para almoçar. Patudo assustou-se com alguma coisa  - certa vez disseram-me aos meus tios que ele poderia ser vidente e era assustado por algum espírito – e começou  a correr.

Na pracinha do paredão virou à esquerda, passou defronte a telefônica e na esquina da Farmácia do Roberto França entrou na rua XV quase em duas rodas. Os dois cavalos bem ferrados e o aro de metal das rodas da carroça faziam um estardalhaço nos paralepípedos da rua XV. Tio Almir, agarrado nas rédeas gritando Óóóóóó, pára Patudo!!!... E Patudo mais corria. E o pessoal nas calçadas gritava “cuidado que é a carroça do Serôas que voltou a disparar!” Seguiu toda a rua XV. Na esquina do Seu Salomão  viu à direita e na esquina seguinte, defronte a casa do Bôrtolo virou à direita e pegou a rua da Prefeitura, virou na rua das Oficinas, voltou a entrar na rua XV,  passou pela pracinha do paredão e novamente pela ferraria do seu Lourencinho, costeou o rio, entrou na rua do hotel, defronte à Igreja Matriz, passou por trás do grupo, pela rua do Centro Espírita e os cavalos já estavam suando. Tio Almir rouco de tanto gritar e tio Rubico ficou no meio do caminho. E a cidade em polvorosa. Fazia tempo que não fugia boi na descarga do vagão de gado no início da reta do Porto.

O espetáculo era como a correria das velhas diligências e carroções dos seriados do Velho Oeste, que passavam no cinema do Nhozinho.

Minha mãe viu tio Rubico, todo sujo de carvão, perguntou por mim.
- Está com o Mimo (apelido de tio Almir) na carroça!
- Ele está bem, não está machucado?
- Não sei, acho que não. Nem sei onde estão...

Quando a carroça começou a correr eu caí no assoalho dela, misturado com o resto de carvão, e não conseguia levantar com os saltos que a carroça dava. Quando os cavalos acalmaram pude sentar no banco, ao lado de tio Almir e voltar para casa.

Além da sujeira pedi um pé da “loirinha” (uma sandália de sola de pneu, lançada por Aramis Zanardi e difundida pelo Ewaldo Zilli). E por uma semana saía carvão dos meus ouvidos e das minhas narinas.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Tentando a recomeçar a escrever

Não sei se é preguiça ou falta de tempo. Ou muito trabalho. Pressão alta e remédios para entrar nos conformes; glicemia alta e remédios para entrar nos conformes. Tirar um pedaço e colocar um enxerto para ver se dará bons frutos.

E parar de trabalhar é como cabeça d’água no Nhundiaquara: se não caprichar no varejão, o bote descerá às cambalhotas.

Em 2009 a família perdeu Luciana. Que perda! A perda foi muito maior que a perda da família; também foi uma perda para o teatro do Paraná.

Também perdi Odith. Minha amiga de infância e minha fonte de informações sobre Morretes e a sua gente.
E, além disto, o Multiply não aceita os meus caracteres acentuados. Mas se der um clique no título irá à página e lerá o artigo direitinho, como foi escrito.
Quem quiser palpitar para me ajudar dê uma chegadinha em http://desterritorializacao.blogspot.com/2010/01/nos-e-o-nosso-avatar.html. Comecei a falar do avatar para poder caminhar no mundo da virtualidade pelo olhar da desterritoriazação.
Esta história do avatar vai me levar a discutir a questão do corpo. Outro dia uma minha amiga, artista plástica, falou-me algo que me fez matutar: as estátuas de mulheres gregas eram formas masculinas de bunda e peitos. A mulher seria uma projeção do homem. Será que tem relação com aquela história de Eva que nasceu de uma costela do homem? Ou que a mulher seria um homem invertido?

Esta aproximação do mundo cristão com a Grécia antiga vai muito além das escolas de pensamentos que herdamos dos gregos; os “construtores” do cristianismo eram judeus Helênicos. Já li alhures que o mito de Adão e de Eva foi inspirado no mito da Caixa de Pandora.
Eu seu empacar pelo que me desencalhem.
Para que o ano passe mais rápido voltarei aos meus trabalhos de campo entre os guaranis do litoral. Tenho um projeto que está parado.
Esta é a minha programação para este ano.
Um feliz 2010 a todos.

Meus "dante Causa" paternos

Se Luigia Doff Sotta Cherobim fosse viva, ontem (30/01) teria completado 133 anos. Nasceu em Imer, Província de Trento, Itália, e faleceu em Morretes.

Se também fosse vivo, Fiorello Guillermo Cherobim teria completado 137 anos no dia 10 de janeiro.

São os meus dante causa do lado paterno. Tiveram cinco filhos, netos, bisnetos, trinetos e entre ascendentes diretos e afins há uma descendência que passa da centena e lhes permite a eternidade.

Foi um sábado de saudades.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Morretes como ela mesma



Os morretenses da minha época devem estar lembrados dos conflitos e das disputas com os antoninenses que eclodiam no futebol quando as equipes das duas cidades jogavam. Os juízes de futebol que apitavam as partidas dos times das duas cidades já vinham psicologicamente preparados a deixar o campo às disparadas para não apanhar por marcar faltas sempre tidas como proteção ao time adversário. Os antoninenses eram chamados de pés de anjo porque, diziam, tinham o hábito de usar tênis. Em contrapartida, diziam que os morretenses andavam de tamanco. Antonina tinha porto de mar, as Casas Pernambucanas, uma rádio, mas dependiam de baldeação de trem em Morretes. Os moradores de uma cidade sempre consideravam os da outra como os outros, os diferentes.

Mas o outro nem sempre é o diferente. Quando fui fazer o alistamento para o serviço militar na Base Aérea, avisaram-me que não estavam aceitando soldados de Morretes, de Antonina e de Paranaguá porque eram “puladores” (faltavam ao expediente, saíam escondidos, chegavam atrasados...) e não podiam ficar um final de semana fora do litoral. Para os curitibanos, todos os pirimbus eram iguais; mas as diferencias começavam surgir quando tomavam o misto (o trem da tarde, com vagões de carga e de passageiros) para descer a serra. E ficavam mais evidentes durante as tentativas de conquistar as meninas de Piraquara (por sinal muito bonitas!).
Estas relações conflituosas são rotineiras quando pessoas pertencentes a diferentes grupos (de países, Estados, cidades, times de futebol, escolas de samba, etc.) se encontram. Estas diferenças também aparecem dentro de grupos menores.
Continuando com o exemplo de Morretes, o riozinho (“rio da Fábrica”) que corta a cidade, dividia-a em duas metades, a do Operário e a do Cruzeiro (novamente o futebol!); o lado do Operário era PSD e o do Cruzeiro UDN. O “pedaço” do PTB (que agrupava os ferroviários) era do outro lado dos trilhos da Estrada de Ferro. Esta rivalidade dividia amigos e membros de família: Valdinho e os filhos da Chiquita moravam do lado do Operário, mas eram cruzeiristas; Divar, cruzeirista até hoje, é sobrinho de Valdico (irmão de Chiquita), operarista até a alma que hoje mora “do lado do Cruzeiro”. Corta cabelos na barbearia de Divar. Havia os que mudavam de lado. Nenê Scremin pertencia do lado do Operário, mas começou a jogar no Cruzeiro. Tanto fizeram que o trouxeram de volta. Evaldo Zilli sempre viveu do lado do Cruzeiro, mas foi “levado” para o Operário. Benedito Rolha, seu Roberto Lopes e filhos eram operaristas roxos que moravam do lado do Cruzeiro. Lauro Lopes, filho de seu Roberto, foi jogador do Cruzeiro e depois passou para o Operário. Os que mudavam de time eram trânsfugas para os antigos companheiros e motivos de elogios para os do novo time.
As situações descritas acima indicam que ser igual ou ser diferente é uma questão de situações e de interesses de momento. Em Curitiba (e até pegar o trem), morretenses e antoninenses eram todos iguais (“puladores”, por exemplo); em Morretes eram todos iguais frente aos antoninenses, mas se diferenciavam quando prevaleciam assuntos locais. Entra, aí, o conceito de gente. Gente somos nós; os outros não são gente. O que nos torna gente, então, é sermos iguais. Claro que isto tem gradações. Se estudarmos a história das famílias no Brasil, aprendemos que alguém para ser gente teria que se agregar a uma família, tornando-se “gente da família...” Não se agregando – e, portanto não sendo gente – perdia até o direito à vida. Os grupos tribais sempre se denominam como gente. Se for de outro grupo não será gente. Se trouxermos o ontem para o hoje e o que for indígena para nossa sociedade, podemos citar os exemplos das torcidas uniformizadas em que o simples vestir uma camisa de time adversário será motivo para “deixar de ser gente”.
Nós, de Morretes (nascidos, adotados, etc. pela cidade), somos gente de Morretes. Se assim somos, é porque temos interesses coincidentes, visões de mundo semelhantes (quem vê diferenças entre nós, somos nós mesmos), e, portanto características comportamentais similares. Esta identificação em ser “gente de...” é porque nascemos no seio de um grupo, ou uma comunidade, onde aprendemos a ser um de seus membros. Há, neste lugar geográfico em que nascemos uma população (um ambiente social) e uma paisagem (um ambiente físico, com um tipo de topografia, de solo para agricultura, de comércio, de meios de comunicações, tipos de comida – como o barreado). A interação destes dois elementos proporcionará uma característica especial aos seus moradores, à sua arquitetura, às suas atividades econômicas, um modelo de poder político, etc. Teremos, então, a partir destas características dizer que Morretes é assim e desta forma Antonina é diferente porque existem outras características que colaboraram em sua formação histórica. Apesar de muito próximas. Em outras palavras, em cada uma das cidades existem maneiras de agir, de sentir e de pensar apropriadas.
Estas maneiras de agir, de sentir e de pensar são uma forma simplificada do que os antropólogos chamam de cultura. Existem aquelas maneiras genéricas que chamamos de brasileiras e outras, ainda mais genéricas, que chamamos de ocidentais. Cultura brasileira e cultura ocidental. Se por um lado estas maneiras de agir, de sentir e de pensar podem se tornar cada vez mais genéricas, também podem se tornar mais específicas, podendo chamá-las de subexpressões culturais. O Paraná enquanto sociedade representa uma subexpressão da cultura brasileira, mas também pode ser considerado como uma subexpressão cultural do sul brasileiro. Mas também pode ser classificado segundo diferentes regiões, os chamados Paraná do sul, Paraná do norte, oeste do Paraná, e assim por diante. Qualquer divisão cultural que se queira fazer será válida porque nenhuma das regiões selecionadas é homogênea. Morretes poderá ser classificada como uma destas especializações. E é isto, então, que nos torna “gente de...” Nós fomos “construídos” pelo nosso grupo social e é isto que nos torna pessoas.
Se fomos socialmente “construídos”, esta “construção” obedeceu a um modelo sociocultural, econômico e político de onde fomos criados e educados. Nós, com as nossas idiossincrasias, denunciamos esta nossa socialização (o nome técnico daquilo que dissemos na frase anterior). Nós seremos reconhecidos (identificados) como um participante de determinado grupo. A nossa identidade foi construída desta forma. Só que a nossa identidade tem o sentido de mostrar em que grupo fomos socializado. A identidade de Morretes é a síntese das identidades apresentadas pelos morretenses. Claro que, quando fora de Morretes esta identidade de morretense em Morretes não terá significado porque agora todos são morretenses, e portanto “iguais”.
Falei de cultura enquanto conceito antropológico. O significado é amplo com o sentido de cultivo, seja na agricultura, seja no saber. A pessoa que estudou ou que lê muito, que “sabe das coisas”, é reconhecida como uma pessoa de cultura. Ela cultivou um saber. Um país, uma comunidade, também podem cultivar e conservar o saber de seus membros através de livros, bibliotecas, museus, monumentos, etc. Cada um de nós somos partes da (e de uma) história e o cultivo do saber é a preservação da memória desta história. E assim poderemos saber e dizer o quê e quem somos. Parte de minha história, e, portanto de minha identidade, está em Morretes. Se não preservar a memória desta identidade, perderei as minhas raízes. Podemos – e devemos – dizer o mesmo para com uma comunidade (ou cidade).
Quando passo por São Sebastião sinto uma saudade imensa de minha Morretes; quando vejo fotos de Parati lembro logo de Antonina. Estas cidades, de idades aproximadas, apresentam características semelhantes: as suas casas, as suas ruas e a disposição arquitetônica, seguiram um modelo cultural do momento histórico em que foram construídas. Por trás disto está o saber daquele momento, a disposição segundo as hierarquias social, política e econômica, um momento histórico congelado naquelas obras construídas pelo homem. É desta forma que vemos Morretes. Esta é a sua identidade. (Mauro Cherobim – São Paulo – jul/1997)
(Publicado originalmente em: Morretes como ela mesma. Jornal do Leste. Curitiba: outubro de 1997, p.08 (Opinião))