sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Um primeiro olhar

 A nossa compreensão de mundo é binária e de oposição. Oposição, neste sentido, não é de exclusão, mas de complementação. A oposição é identificadora e evitamos a ambigüidade porque buscamos o ser procurando-se evitar o pode ser. Ser é uma utopia, um  modelo, a nossa procura; permanecemos nos limites pode ser na certeza que somos.

 A vida em sociedade, desta forma, se torna uma expectativa e não uma realidade. É ambígua de fato, mas precisa e clara nas nossas definições.

 Parece-me que a maior das ambigüidades é a dicotomia sagrado e o profano. Os nossos olhos estão no sagrado e os nossos pés no profano. O sagrado é o modelo e o profano é o chão onde pisamos. Vê-se o sagrado como origem e destino e o profano como o chão onde se pisa. E que não olhamos para ele porque os nossos olhos estão no modelo.

 Existe uma área de fronteira entre estes dois mundos ocupada por um sem número de manifestações religiosas, cada uma gerando explicações acerca do pode ser e do deve ser. Há muita demanda que varia de acordo a imposições de ordem econômica, política, pessoais que empurram as pessoas na busca de explicações para elas inexplicáveis nos seus dia a dia.

 Se definirmos manifestação religiosa como esta busca em direção ao mundo sagrado, encontraremos nas igrejas e nos sacerdotes a interface comentada acima.

 A tecnologia, como a práxis da ciência, é uma agente poderosa com capacidade de organizar e desorganizar a esta área de fronteira entre estes dois mundos. E tem permitido a construção de novos mundos que nos permitem o papel de heróis civilizadores tal qual aquele que chamamos de Deus.
 Depararemos, aqui, com uma nova ambigüidade conhecida como mundo virtual.

 O objetivo deste canto de reflexão não é o de convidar as pessoas a viver na virtualidade, mas de refletir e de entender este mundo por onde transita muita gente. Umas pessoas físicas, reais, e outras virtuais, com todas as características de pessoas físicas, mas que são emulações ou, na linguagem da informática, pessoas que são como se fossem e aceitas como tais, mas que têm as suas vidas intercaladas pelo liga/desliga dos computadores.

 Há uns anos participei de um livro que falava sobre namoro na Internet com um capítulo Sem lenço nem documento (SAMPAIO, Alice. Amor na Internet. Quando o virtual cai na real. Rio de Janeiro: Record, 2002) onde discuto questões de territorialidade e desterritorialidade e como o namoro acontece no espaço desterritorializado.

 Muitas aconteceram nesta década em termos de desenvolvimento de equipamentos, softwares e no rastro os sites de relacionamento que tornam as conversas, o contato mais presente, trazendo o virtual para mais perto do real ou levando o real para mais próximo do virtual. Não só nos sites de relacionamento, mas também em praticamente todos os setores da vida, até nos veículos em que a tecnologia tem substituído muitos atos que julgávamos essencialmente humano.

 Não teremos aqui um saco de gatos, mas uma gama de atos, atitudes, definições, consideradas distantes, diversas, os são partes de um conjunto muito próximas, confundindo-se uma com as outras.

 As discussões estão abertas.

3 comentários:

Gê! disse...

Mauro,
Seu texto é extremamente reflexivo para que uma opinião seja dada no tiro, no repente da primeira leitura, mas deixo aqui minhas impressões, pois vejo, sem qualquer saudosismo que as transformações nas relações têm sido expressivas demais.

Muitos, na ânsia de querer serem vistos e reconhecidos, esquecem-se da imperiosa necessidade do contrário; do respeito pelo indivíduo e da manutenção da cultura e das tradições.

É certo que mudanças são necessárias e inevitáveis, mas não vejo tudo que vejo com expectativas positivas, já que muita coisa essencial estamos perdendo, valores primários em extinção.

Fico curioso por desejar saber como será tudo isso dentro de mais alguns anos; Pessoas cada vez mais introspectivas, presas no seu pequeno universo, sem a chance da interatividade pessoal; do olhar nos olhos e, nunca esquecer das palavras mágicas, como Bom dia, Obrigado e por favor...

Como exposto no seu texto, a virtualidade toma conta; pessoas passam a lidar com o que, inicialmente, deveria ser apenas um entretenimento, uma brincadeira, como uma segunda personalidade, um mundo paralelo...

Mas, se é para ser assim, que assim seja!

Abraços,
Gê!

Laine Aparecida Froza disse...

Querido Professor , obrigada pelas orientações...
Um grande abraço.

Psicologia & Sexualidade Humana disse...

Mestre querido,
Adorei o texto, principalmente no que tange o respeito pelo ser com seu jeito aracnidio de ser...Bomm!!!