terça-feira, 4 de setembro de 2012

Um porre de quira.


Quira embriaga[1]

Eu entrava na minha adolescência e fazia cobrança para a Aliança da Bahia Capitalização. O representante em Morretes era o seu Marquinho De Bona. Odith, da mesma idade, cobrava na cidade e eu nos sítios. Todo final de mês pegava a bicicleta e andava por todos os cantos do município. América de Baixo, América de Cima, Marumbi, Fortaleza, Anhaia, Mundo Novo...

Os locais mais cansativos eram os engenhos do seu Sanson e dos Gnatta, pois ficam aos pés das serras. As estradas eram estreitas e com pedras no seu leito. Ao mesmo que era difícil e cansativo ir e voltar, a recepção que tinha por parte daquelas pessoas e o fato de apesar de recém-entrado na adolescência exercia uma atividade remunerada eram gratificantes. Nos engenhos de cachaça havia uma gentileza a mais: convidar ir até os cochos de fermentação para tomar quira.

Quira era o nome que se dava ao caldo de cana fermentado que ao passar pelo alambique para ser destilado; depois da fervura e evaporação “pinga” na bica do alambique. Eis porque a cachaça também é chamada de pinga.

Seu Lori Alpendre era um dos donos de engenho de cachaça e dono de uma apólice.  Como em todos os engenhos, morava próximo. Numa das cobranças cheguei no engenho do seu Lori suado, cansado e com sede. Eu deveria ter, nesta época, uns 12 ou 13 anos. Ele pediu para esperar um pouco enquanto ia buscar as apólices em sua casa e sugeriu que eu fosse tomar um pouco de quira, mas não tome muito, que poderá fazer mal, uma recomendação que os donos dos engenhos de cachaça sempre faziam: não tome muito, pois faz mal. Mas nunca explicavam que mal era este. Mas era muito leve e gostosa!
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O cocho de fermentação é colocado num local sombrio e fresco. Um contraste à canícula morretense. Tomei o primeiro gole, e logo o primeiro caneco.. Era um caneco feito de lata de óleo de cozinha. O primeiro caneco desceu tão bem!... O segundo, o terceiro... Não sei quantos... Que delícia! Seu Lori retornou, acertou a mensalidade e eu fui embora.

O engenho dele ficava cerca de dois quilômetros da entrada da cidade. Na metade do caminho senti um problema na roda da bicicleta que não a deixava a bicicleta andar em linha reta. Desci, estava tudo certo, mas a danada da bicicleta teimava em andar de um lado para o outro da estrada. Comecei a notar, neste ziguezaguear que o problema  não era com a bicicleta, mas comigo, pois a minha vista começou a ficar ruim, a boca meio amortecida, Mesmo assim imaginei que fosse por causa do ziguezague da bicicleta. Atravessar a cidade ziguezagueando não foi fácil; e quanto mais ziguezague, mais tonto ficava.

Cheguei em casa junto com a minha mãe. Eu me joguei na cama e falei para ela que  estava morrendo. Ela, como toda mãe, correu chamar o Doutor Baraúna, o médico da cidade. Do jeito como minha mãe saiu o pessoal começou a se aglomerar: o filho da Dona Dulce está muito mal, parece que está morrendo! E eu me sentia com um pé na cova...

Doutor Baraúna, vendo-me daquele jeito, talvez suspeitando “das causas do meu mal”, começou a me perguntar algumas coisas e eu não conseguia falar nada, parecia estar com a boca cheia, a língua pesava uma tonelada. Olhou para mamãe e falou: Dona Dulce, este guri está embriagado... Ele tomou muita quira.

Foi o meu primeiro porre sem saber que estava de porre. Eu não sabia, até então, que a quira embriagava. Era o “mal” que os donos de engenho falavam...

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