quarta-feira, 10 de maio de 2017

Verba volant, scripta manent

Ao acompanhar a operação Lava Jato e todos os demais processos (de outras operações da PF)  contra Lula fica claro de que o ex-presidente não é defendido pelos seus advogados. Eles não vão além procrastinar, ou seja, provocar chicanas, sem mostrar provas concretas da sua inocência. Passam a mostrar, desta forma, que as denúncias são verdadeiras.  E são, pois são corroboradas por documentos.

Um leitor da revista Veja levanta uma questão a respeito da justiça e da lei: a lei serve à justiça ou a justiça serve à lei. Parece-me que até agora os operadores do direito têm agido no sentido de a justiça servir à lei. Mais claramente às “falhas” da lei que os bons advogados fazem isto com proficiência. Assim fazendo, esta geração de advogados – e muitos juristas – embevecem as plateias, do alto dos seus púlpitos, através do dom das palavras. Com o PT e seus aliados têm feito através das suas narrativas. “Verba volant, scripta manent”, ("as palavras voam, os escritos ficam") lembrou Temer na sua famosa carta quando pela primeira vez tornou pública a sua dissenção com a então presidente Dilma. A escrita nas redes sociais “volant”. Situação deste escrito quando o descuidado leitor chegar ao seu final. Tal quais as narrativas elaboradas pelos grupos lulopetistas em defesa de Lula e de Dilma. Não é o que acontece com os documentos coletados pelos atuais investigadores judiciais. Este choque de gerações ficou bem claro em declarações do Ministro Gilmar Mendes ao criticar os procuradores federais.

Todos são iguais perante a lei. Alguns são mais iguais. Como Lula se acha. E Dilma também. A inocência de Lula não está nos seus atos, mas no que ele declara. Mesmo que vá contra a lógica. E contra os fatos.

Pelo menos em uma coisa o lulopetismo será lembrado. Ou melhor, em duas. A primeira pela crise social, política e ética que fez o Brasil mergulhar e a segunda a de possibilitar o surgimento de novos operadores do Direito. 

Ao acompanhar a operação Lava Jato e todos os demais processos (de outras operações da PF)  contra Lula fica claro de que o ex-presidente não é defendido pelos seus advogados. Eles não vão além procrastinar, ou seja, provocar chicanas, sem mostrar provas concretas da sua inocência. Passam a mostrar, desta forma, que as denúncias são verdadeiras.  E são, pois são corroboradas por documentos.

Um leitor da revista Veja levanta uma questão a respeito da justiça e da lei: a lei serve à justiça ou a justiça serve à lei. Parece-me que até agora os operadores do direito têm agido no sentido de a justiça servir à lei. Mais claramente às “falhas” da lei que os bons advogados fazem isto com proficiência. Assim fazendo, esta geração de advogados – e muitos juristas – embevecem as plateias, do alto dos seus púlpitos, através do dom das palavras. Com o PT e seus aliados têm feito através das suas narrativas. “Verba volant, scripta manent”, ("as palavras voam, os escritos ficam") lembrou Temer na sua famosa carta quando pela primeira vez tornou pública a sua dissenção com a então presidente Dilma. A escrita nas redes sociais “volant”. Situação deste escrito quando o descuidado leitor chegar ao seu final. Tal quais as narrativas elaboradas pelos grupos lulopetistas em defesa de Lula e de Dilma. Não é o que acontece com os documentos coletados pelos atuais investigadores judiciais. Este choque de gerações ficou bem claro em declarações do Ministro Gilmar Mendes ao criticar os procuradores federais.

Todos são iguais perante a lei. Alguns são mais iguais. Como Lula se acha. E Dilma também. A inocência de Lula não está nos seus atos, mas no que ele declara. Mesmo que vá contra a lógica. E contra os fatos.


Pelo menos em uma coisa o lulopetismo será lembrado. Ou melhor, em duas. A primeira pela crise social, política e ética que fez o Brasil mergulhar e a segunda a de possibilitar o surgimento de novos operadores do Direito. 

terça-feira, 2 de maio de 2017

Festa religiosa no Rio Sagrado.

Festa religiosa no Rio Sagrado.

As minhas lembranças sobre Morretes tomam vida quando procuro dar-lhe vida num determinado momento da sua história que é, também, a minha história.

Quando vou a Morretes fico admirado com a quantidade de bicicletas. Parecem ser mais uma parte dos ciclistas do que um meio de condução. No meu tempo de guri poucos possuíam uma bicicleta. Elas eram muito caras para o poder aquisitivo dos morretenses. A minha bicicleta era um Dürkopp que fora do meu pai desde o seu tempo de solteiro. Eram bicicletas reforçadas que aguentavam bem as estradas de roça de Morretes. O exército italiano equipou tropas bersaglieri de infantaria ligeira. Os alemães também tinham as suas tropas de ciclista e até os norte-americanos chegaram usar bicicletas no século XIX.

A Dürkopp apresentava a sua “marcialidade” com um “D” cortado com uma flecha no para-lama dianteiro. Apresentava algum perigo, mas tal um bersaglieri eu costumava ir à casa de tio Tonicão ajudar fazer caixeta para embalar as sua goiabada. Tio Tonicão era uma parada. Não sabia falar se não tivesse um PQP no meio de cada frase. Um dia chegaram uns fregueses comprar goiabada e reclamaram do preço. Ele respondeu que “PQP, então não compre”. Tia Maria, muito respeitosa, acudiu e repreendeu: não fale palavrão, Tonico!... Ele respondeu: PQP, não falo... Mas continuou a falar e ela vendeu a goiabada aos clientes. Eu gostava de ajudar fazer caixetas enquanto conversávamos.

Tio Tonicão tinha um carrinho “todo-duro”. Era uma carroça de duas rodas sem molejo, puxado por somente um cavalo. Um dia ele vinha do Central pela estrada do Funil, ao passar por uma pontezinha o cavalo se assustou e caiu no rio. O Tio pulou na água e ficou segurando a cabeça do cavalo fora da água. Nisto aparece o Sebastião Farias e começou a rir. Olha aqui, seu FDP, ao invés de ficar rindo venha me ajudar a tirar este cavalo daqui. Sebastião assustou-se com “a ordem”, pulou na água e o ajudou.

Passado algum tempo, Sebastião era frentista do posto do seu Estevão  defronte à Igreja de São Benedito e o Tampa Diabo estava pintando a Igreja. Ele era o líder do PTB (o antigo, de Getúlio) porque era bandoleiro. Até os soldados tinham medo dele. Terbek era da boa paz e por isto Tampa Diabo o provocava. Neste dia passou pro ali, foi provocado, experimentou o seu revólver e voltou onde Tampa Diabo estava. Quando as provocações começaram, Terbek sacou o revolver e deu dois tiros. Dizia-se em Morretes que o segundo não era necessário, pois Tampa Diabo nem o sentiu.

Sebastião era o frentista do posto e assistiu tudo. Foi testemunha do julgamento. O juiz perguntou onde ele estava no primeiro tiro. No Posto, respondeu. E no segundo? No matadouro, distante uns dois quilômetros e meio. Quando contei para tio Tonico, exclamou, PQP, “pauroso”! Para ajudar precisa brigar, mas com “paura’ sabe correr.

Gostava muito de conversar com tio Tonicão e com isto jantava com ele e voltava noite. E a reta do Porto era escura. O que nos guiava era uma luz fraquinha de um posto defronte a Igreja de São Benedito. As noites eram muito escuras. Numa delas bati num obstáculo. Ouvi um grito! FDP! (Por extenso!) Precedido de um grito de dor. Pelo grito e circunstância bati atrás de um homem. Ele foi atingido pela flecha do “D” da Dürkop. Não sei quem eu atropelei e o atropelado provavelmente não descobriu que o atropelou.

Nesta época, que eu me lembro, havia somente um “carro de praça’ em Morretes. Taxi era coisa de filmes americanos que passavam no cinema do seu Nhozinho. O meu pai teve carro de praça opor uns tempos, mas o chofer de praça mais longevo em Morretes era o seu Leopoldo. Era o chofer de praça mais longevo. O seu automóvel era uma ramona fabricada da década de 20. Como não havia peças sobressalentes ele mesmo fabricava as peças. Como não havia lonas de freio ele fabricou uma de ferra. Quando pisava no freio, Morretes escutava.

O que mais havia em Morretes eram as charretes, as aranhas, o carrinhos toco duro e os carrinhos com mola. As charretes usavam pneus e na maioria tinha molas. As Aranhas eram charretes com roda de ferro, como as das carroças.

Havia mais caminhões do que automóveis. Muitas pessoas tinham carrinho de mão quando transportavam algum peso.

Como a maioria dos veículos era puxada por animais e também havia muitos animais de montaria; os ferreiros eram os profissionais muito requisitados. Os mais conhecidos eram o seu Scremin e o seu Lourencinho. E eram vizinhos. O que separava as duas ferrarias era a casa do seu Lourencinho. Seu Lourencinho e dona Lúcia, sua esposa eram muito prestigiados na Igreja. Dona Lúcia fabricava hóstia e seu Lourencinho costumava arrumar uma charrete ou uma aranha para que o Pe. Camargo. E Valdinho, desde cedo se tornou sacristão. Foi através dele que eu me tornei sacristão e logo na primeira vez provoquei um atraso na missa porque eu não sabia onde estava o vinho que o padre usava para os sacramentos na missa. Valdinho conhecia do o processo da missa e eu não conseguia lembrar, por isto ele era o sacristão de confiança.

Uma vez eu cheguei em Morretes e propus para Valdinho ensinar a gurizada a bater sino. Para cada cerimônia havia uma batida. Uma batida alegre para as coisas alegres, uma batida triste para fatos tristes. Ele me falou que não houve cuidado e os sinos estavam rachados. Ao chegarmos às escadarias da Igreja Matriz encontramos um padre idoso; fui apresentado ao padre com a informação que nós fomos os melhores sacristães, só que eu me tornara ateu. Na verdade eu não sou ateu. Nem teísta. Mas o padre saiu dali sem ao menos se despedir.

Naqueles tempos só havia as igrejas católicas e uma batista, na pracinha da Estação. E o Centro Espírita. Além das festas nas igrejas da cidade, também havia festas nas igrejas dos sítios. O Padre e os sacristãos eram bem tratados. Enquanto eu Valdinho fomos sacristãos sentíamo-nos socialmente prestigiados. Principalmente nos sítios.

Uma vez fomos “fazer” a festa no Rio Sagrado. Era rezada a missa e a tarde uma procissão, muitas vezes no pátio igreja. Saímos da cidade antes de amanhecer o dia. Desta vez, Jairo, sobrinho de Dona Sebastiana da telefônica falou para nós que queria ir junto. Se você arrumar uma bicicleta pode ir, mas não sei se haverá comida, pois nós almoçamos na casa do festeiro.

Jairo se aprontou antes de nó. Quando chegamos ele estava nervoso, imaginando que o havíamos deixado para trás. Valdinho com uma aranha, eu de bicicleta e Jairo também  de bicicleta fomos buscar o padre na casa paroquial, onde hoje é uma casa de material de construção dos Stocco. Lá fomos nós. Valdinho com o Padre na aranha, eu e Jairo de bicicleta acompanhando-o. Vencemos a reta a partir de Morretes, subimos a primeira subida do Morro Comprido, a segunda e quando chegamos numa curvinha da ponte do Passa Sete olhei para trás não vi Jairo. Chamamos e nada. Retornei para procurar, chamando-o até que ouvi baixinho, “estou aqui”. Jairo dormiu na bicicleta, saiu da estrada e caiu sobre uns arbustos que os impediam sair dali sem auxílio.

Jairo ficou tão assustado que preferiu voltar para casa. Perdeu a festa do Rio Sagrado.

O Rio Sagrado era um bairro bem povoado e ali moravam pessoas de grande influência na cidade, como seu Dorcílio, seu Tanus e outros que não me lembro de nome. Minha avó materna foi professora da escola do Rio Sagrado quando foi removida de Guajuvira (Araucária) para a escola do Rio Sagrado. Diariamente fazia uma boa caminhada do Petinga até a escola. A minha mãe foi aluna da minha vó e daí foi a Curitiba, matriculou-se no Instituto de Educação. Formada, retornou para Morretes.


(Esse texto não foi editado)

sexta-feira, 24 de março de 2017

Os porcos e os suínos

Em Curitiba circulava o jornal O Dia. Os meus pais eram assinantes deste jornal e eu seu leitor assíduo. Foi este jornal, vendido a quilo, que permitiu comprar o vidro do ginásio, que contei numa das minhas lembranças em Morretes Notícia. Era eu que sempre estava em casa quando Dagoberto vinha entregar o jornal, ansioso para ler a charge do Chico Fumaça. Fico pensando: acho que errei de profissão; deveria estudar jornalismo. Josué, filho da Dona Rosinha, neto de Dona Isaura, talvez tenha sido o primeiro morretense a ingressar num curso jornalismo. Senti aquele clique de quem diz: por que não fiz? Falo isto, pois gostava de dar as notícias em primeira mão. Mas o que é a etnografia se não contar histórias? Do Chico Fumaça e outras notícias interessantes para mim, na fase de pré-adolescência e na adolescência. Os comentários e as críticas muitas vezes contundentes, mas numa linguagem que o pré-adolescente e adolescente imaginava ser para ele.

 Eu era leitor de Chico Fumaça e da coluna do Elói Montalvão, dois personagens de um só autor, Alceu Chichorro. Chico Fumaça, Dona Marcolina pareciam ser o seu altar-ego. O foco deste colunista, fui compreender depois, era a política.

Na Morretes da minha geração a política era algo muito próximo e o sistema partidário de então era bem representado. Getúlio Vargas criou dois partidos, o PSD para os ricos e o PTB para os pobres. Para a pequena burguesia ficou a UDN. Morretes era dividida pelo futebol e pela política e o PTB era muito forte na passagem da década de 40 para a de 50. Em 51 conseguiu eleger seu Corrêa Lima, prefeito de Morretes. Se a memória não falhar, Juca Pereira era o seu vice. Mas, me lembro bem, era o dirigente do PTB morretense. Corrêa Lima era chefe de trem e Juca Pereira o concessionário do bar da estação ferroviária. Os ferroviários, quase todos, eram petebistas.

Todo morador de cidade pequena é bairrista; ver uma referência à sua cidade, mesmo que seja implícita, fica radiante. Como no dia em que li o comentário de Eloi Montalvão que um prefeito de uma cidade do litoral, ex-chefe de trem, recebeu um manifesto de carga onde constava que na composição havia dois vagões com suínos. Corrêa Lima, ao fazer a conferência da carga, enviou um telegrama informando que os dois vagões de suínos não faziam parte da composição, mas que havia dois vagões de porcos não relacionados no manifesto. Juca Pereira escreveu para o colunista falando da injustiça contra Corrêa Lima, um bom homem (realmente era!). Elói Montalvão publicou a carta de Juca Pereira e logo abaixo respondeu que não citara nome e que se a carapuça serviu, não tinha culpa. O silencio é a melhor forma para não vestir carapuças.


Este  texto foi publicado em http://www.morretesnoticia.com.br e em mcherobim.multiply em 29-Jul-2007, sites que não mais existem.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016


A Estação Ferroviária e as madrugadas curitibanas.



Cheguei do colégio, coloquei o relógio para despertar às seis e meia e fui dormir. Morava com tio Juca, na Sete de Setembro a meia dúzia de quarteirões  da estação ferroviária. Dava bem para levantar, ir ao Café Expresso tomar um café com um pão com manteiga e pegar o trem. Gostava do café ali, pois a água chiada do chimarrão era gelada perto deles.

Mas aquela manhã estava diferente. O dia ainda não havia clareado e a avenida estava deserta. Os meus passos ecoavam na calçada. Uma manhã diferente. Cheguei na Estação Ferroviária e estava fechada. Que barbaridade! O que estaria acontecendo? O Café expresso também.

Havia um carro de praça do ponto. Era com os taxis eram chamados. Acordei o motorista, ele abriu o vidro com uma cara zangada, perguntei porque a Estação estava fechada Olha no relógio que você vai saber porquê! Eu olhei, mas o relógio está parado! Respondi. Parado uma ova! O meu aqui marca a mesma hora, olhando para o cebolão que tirou do bolso. Cebolão eram aqueles relógios de bolso.

Fui embora fazer tempo para pegar o trem. Eu havia ligado o despertador, mas esquecera de acertar o relógio. Resolvi esticar o corpo e esqueci-me de ligar o despertador.

Acordei assustado com tio Juca, preocupado,  perguntando se eu estava doente. Contei para ele e ele caiu na risada. Viajei à tarde no misto.

Tio Juca achava que eu era desligado. Ele e tia Angelita viajaram de férias. Foram passear no Rio de Janeiro. Uma viagem de um mês. Antes de viajar minha tia falou para avisar o leiteiro para suspender a entrega do leite até a volta.

Eram aquelas garrafas de vidro, com um litro de leite gordo. Nos finais de semana, quando eu ia a Morretes, na volta tinha três garrafas. E o leite começou a coalhar. Naquele mês tomei trinta litros do coalhada.

Havia um dia da semana, acho que nas segundas feiras, em que a tia Angelita ia à missa das almas na Igreja do Bom Jesus. A missa começava às da manhã a uns três quarteirões. Eu a acompanhava.

Um dia chegamos e encontramos o portão fechado. Ela tocou uma campainha e atendeu um vigilante. Informou que a Igreja estava fechada naquele dia para reforma e que a missa seria no colégio São José, do outro lado da praça.

O Colégio São José era um colégio para moças e tinha um pensionato para moças solteiras que iam a Curitiba para estudar ou para trabalhar. A atendente informou que deveríamos Ir por aquele “corredor até o final e subir a escada”. Lá fomos. Minha tia na frente e eu atrás. Ainda bem!

A atendente não informou que a capela ficava no penúltimo andar. No último andar era o dormitório das moças. Chegamos no momento em que elas estavam levantando. Imaginem as moças pudicas, há sessenta e dois anos, chegando acompanhada com um guapo rapaz.






segunda-feira, 15 de agosto de 2016

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Tio João e a história da Rosa Homem


Eu estava no ginásio e o meu pai conseguiu com o seu Marquinho De Bona para que eu estagiasse no escritório do Marquinho Malucelli (havia vários Marcos e Marquinhos em Morretes!). Marcos De Bona era o chefe do escritório era um homens de mil atividades, dentre ela Presidente do Clube Sete de Setembro e agente  de uma companhia de capitalização, Bahia Capitalizações. Nos horas de folga (se havia) era correspondente do jornal O Dia em Morretes e era chamado para fazer discursos. A sua filha Lígia publicou um livro com a coletânea de parte dos seus discursos, com um título sugestivo Tenho dito....

Lá no escritório trabalhavam, pela ordem hierárquica, Darcy, Lívio e João Veloso, três antoninenses importados para jogar no time Operário Futebol Clube. E também trabalhava Odith Salomão, minha amiga desde o início do curso primário. E eu estagiário.

Para ganhar alguns trocados seu Marquinho pedia que eu auxiliasse no Sete para servir as mesas. Eu não tinha muito jeito para este trabalho; o que eu gostava era cobrar as mensalidades da Bahia Capitalização e todos os cantos do município, menos na área central da cidade, obrigação de Odith.

O único local da cidade que eu cobrava era na casa da Olga, a zona de Morretes. Dona Olga era uma mulher de respeito. Todos respeitavam. Ela deveria saber muitos segredos dos cavalheiros nativos e visitantes.

Casa da Olga era a referência politicamente correta. Mas a referência corrente era de zona ou puteiro. Diferente da Casa de Eni de Bauru, o puteiro mais famoso e prestigiado do Estado de São Paulo. “Para a população local, Eny possuía um lado demoníaco e outro angelical. Financiou diversas obras de caridade e encontrou famílias para crianças abandonadas”[1]. As más línguas  diziam que ela produzia mulheres para o seu negócio, mas não. Recentemente foi publicado um livro biográfico de Eni, escrito por um jornalista de Bauru[2].

As cafetinas – e as prostitutas - costumam ser pessoas respeitadas e ao mesmo tempo desprestigiada, como o autor relata a respeito de Eny Cezarino. Em Aragarças havia Joana Boa, tratada como Tia Joana, pelos fabianos (militares da FAB). Quando foram construídos os aeroportos do Cachimbo e de Jacareacanga, o então Major Veloso, que ficou conhecido por liderar a Rebelião de Jacareacanga, contratava Joana Boa para periodicamente arregimentar prostitutas para os trabalhadores dos aeroportos em construção. Estes trabalhadores ficavam isolados por um largo tempo e as prostitutas aliviavam as tensões.

Conheci Joana Boa em 1959. Residia em Goiânia no bairro do Botafogo e tratava os sargentos de pouca idade, longe das suas famílias como se fossem seus filhos. Ela já era uma ex-cafetina. Um dos livros de Mário Vargas Llosa, Pantaleão e as visitadoras, lembra, em alguns aspectos, a relação de agenciamento entre Veloso e Joana Boa.

Somos herdeiros, nas culturas ocidentais, de uma misoginia que nos remete às eras pré-cristãs colocando as mulheres numa posição subalterna aos homens. As prostitutas têm algo de Lilith, a primeira Eva, portadora da uma face demoníaca e de outra angelical, mas sem o caráter subserviente  e “erradiço[3]” em relação segunda Eva. Esta Eva foi feita da costela do homem para servir a ele. Como a costela é curva ela nunca ficará ereta como o homem e por isto deverá ficar sempre sob a sua proteção.

A prostituta tem um caráter de Lilith no imaginário das pessoas e as mulheres “honestas” da segunda Eva. Sempre sob a ameaça de ser iludida por alguma serpente. O homem quando ingressa num bordel entra num mundo diferente, fonte de muitas crenças e preocupações que colocam em perigo a sua masculinidade, poderosa, no mundo fora dos bordeis. 

Nesta época, início da década de 50 do século passado, Tio João Fante e tia Regina Fante, dois irmãos, ele solteiro e ela viúva, moravam na reta do Porto. Eles eram meus tios avós. Os sobrinhos netos são tratados como netos.  Era assim com tio João e tia Regina.

A casa da Olga ficava no começo da reta do Porto[4] junto ao trilho da linha ferroviárias do ramal Morretes-Antonina. A casa era cerca por algumas árvores e arbustos menores que a deixava escondida para quem passava pelo caminho ao lado dos trilhos e pela estrada. Mas havia alguns caminhos e um deles dava acesso à reta do Porto.

Numa das minhas idas à casa da Olga fiz a cobrança e saí na reta no exato momento em que tio João Fante passava. Ele se assustou a me ver saindo por aquele caminho e me perguntou de onde eu vinha. Ele sabia, pois quem saía por ali só podia ter vindo da casa da Olga. A preocupação dele era grande. E me contou a história da Rosa Homem.

Rosa era mulher até a meia noite. Quando o relógio batia a ultima badalada ela virava homem. E o homem que estivesse com ela, teria que “virar” mulher, ou fugir pulando a janela. Aquele caminho que ele me viu sair era a rota de fuga dos que conseguiam fugir.

Todo guri é curioso e quis saber se ele, alguma vez teve que fugir da Rosa Homem e pulado a janela. Ele me disse que não. Não foi do tempo dele, mas os amigos falavam dos que tiveram que fugir.





[3] É um neologismo, pois não encontrei uma palavra para definir a oposição às expectativas de virtudes atribuídas à segunda Eva. Antes do episódio da maçã. O mito de Lilith voltou a ser contado pelos rabinos da Idade Média. Contavam estes mitos que Lilith não concordava em ter relações sexuais de forma subalternas sob Adão, mas não era satisfeita porque não era considerado certo Adão ficar sob ela. A posição que chegou até hoje conhecida como “posição do missionário”, também chamada de “papai-e-mamãe”. Ela reclamava, pois não entendia porque, se ela foi feita de barro como Adão tinha que ter uma posição subalterna. Por não ser atendida, abandonou Adão e foi embora. Adão ficou muito triste e pediu ao Senhor que a convencesse voltar. O Senhor enviou dois arcanjos à procura; depois de muito procurar Lilith foi encontrada. Os arcanjos deram o recado, talvez de forma não tão diplomática. Lilith ficou muito zangada e mandou os arcanjos embora. Em resposta o Senhor deu-lhe um castigo: seus primeiros cem descendentes morreriam. E Lilith foi  transformada, segundo estes mito, num súcubo, demônio de forma feminina, que perseguia os homens até ter relações sexuais com eles, enquanto dormiam, geralmente homens solitários, até consumir toda a sua energia vital. A forma masculina do súcubo é o íncubo.
[4] Estrada que liga Morretes ao distrito do Porto de Cima.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

A vidraça do ginásio

Na metade de 2003 recebi um recado que me alegrou muito. Era de Roselis Latuf avisando-me que estava organizando um almoço comemorativo aos cinqüenta anos da nossa formatura ginásio. Já chegamos ao nosso quarto almoço. É um momento em que nos desligamos da Morretes de hoje. Também do mundo de hoje. Passamos a relembrar o mundo daquele tempo.  De muitas coisas guardadas nas sombras da memória. Um lembra um pedaço, outro mais um pedaço e logo a imagem da memória fica completa. E podemos comparar a vida de Morretes de então e a Morretes de hoje.

Eu e Osvaldo Colodel (Valdinho) somos amigos desde o jardim de infância e por isto temos muitas histórias em comum para recordar. Num intervalo de aula, no ginásio, Valdinho estava sentado na carteira e eu dei uma chave de braço fazendo-o quebrar a vidraça com os pés. Foi vidro por todo o lado. Dona Rosinha, a zeladora, correu ver o barulho e avisou: dêem um jeito nisto antes que o Dr. Melo saiba. Dr. Melo era o diretor do ginásio.

Depois do almoço Valdinho foi a minha casa me chamar para consertar o estrago. Tínhamos que fazer alguma coisa, pois ele era vizinho do Dr. Melo e eu tinha a minha mãe, professora e muito severa. Era complicado ser filho de professora; teria que ser o exemplo[1]. Mas consertar como se nenhum de nós tinha algum centavo? Ele deu a idéia de vender garrafas e jornais velhos para conseguir dinheiro.

Com um monte de jornais fomos ao negócio do Marquinho (que se transformou, bem mais tarde, no Malucelli da Visconde). Quem comprava era o Máximo Salomão, ou um dos Joanitos, o Malucelli ou o Airosa. Olhavam bem a boca da garrafa para ver se não estava quebrada, em condições de ser fechada com a chapinha, ou champinha no nosso linguajar. Procurávamos o Tonico Nhão para pesar os jornais, ele não reparava, ou fazia que não via, a nossa ajudinha com a ponta dos dedos para tornar os jornais mais pesados.

Feita a venda, conseguimos algum dinheiro e fomos á oficina seu Euclides de Freitas para nos ajudar. Era um marceneiro de primeira. Fazia de tudo. Arrumava de tudo que fosse de madeira. Era quem melhor conhecia os segredos de fazer um bom caixão de defunto. Era o entendido das cores do caixão segundo o sexo e a idade do(a) finado(a). Entendia de cores de caixão mais que o Padre Camargo, pois ele costumava perguntar a nós, sacristãos (depois chamados de coroinhas, com a globalização). Como éramos nativos, dávamos a informação correta. E tínhamos que saber para dar o toque de sino certo. O toque era unisex. Claro, até recentemente as almas e os anjos não tinham sexo!

Não bastasse, seu Euclides era músico da Euterpina. Era um conjunto musical que também era banda, orquestra e tudo o que lhe coubesse fazer. Seu Euclides tocava tuba. Ele contou, certa vez, que não havia jeito de sair som da tuba. Alguém, por malvadeza, jogou um pão de sanduíche dentro da tuba; com a saliva o pão inchou e entupiu a passagem do som.

Além de todas estas suas habilidades profissionais e de pessoa excepcional, era um bom professor de marcenaria e um consultor financeiro. Chegamos lá e contamos o nosso problema. Para que serviriam os nossos parcos cruzeiros? Seu Euclides nos emprestou as ferramentas necessárias e nos mandou limpar e medir o local do vidro e medir com cuidado.

O ginásio funcionava somente pela manhã. Tivemos que procurar a dona Rosinha para abrir a porta para permitir a nossa entrada no recendo do ginásio.

Dona Rosinha, esposa do seu Manequinho Goiabeira, oficial de justiça, filha de dona Isaura, irmã do Carlito Butiá e mãe do Josué. E mais que tudo isto, uma amiga dos alunos. Fizemos um serviço de profissional.

Ainda deu tempo para ir ao matadouro ver o seu Felix matar boi. Seu Felix era o herói da gurizada, fazia do mesmo jeito que faziam os cowboys dos seriados que passavam depois dos filmes no cinema do seu Nhozinho. Mas perdi o chimarrão das três na alfaiataria do Honilson Madalozo.

Mas ainda havia uma preocupação, a preocupação do dia seguinte: enfrentar o Dr. Melo.

Todos os alunos entravam em forma antes de as aulas começarem. As meninas na frente e os meninos atrás. E por altura, dos mais baixos aos mais altos. Cada um sabia o seu lugar. Cantávamos o hino Nacional, algumas vezes, o hino do Paraná ou o de Morretes outras vezes. E era o momento em que o diretor se dirigia a todos os alunos.

O dia seguinte, para mim e para Valdinho seria a hora da onça beber água. Estávamos contando com uma suspensão. Ninguém ainda havia quebrado vidro de uma janela do ginásio. Iriam dizer: o filho de Dona Dulce? Filho de professora tinha que ser santo. Tão santo que Dom Ático Eusébio da Rocha, arcebispo de Curitiba queria que eu fosse para o Seminário! Hoje eu seria um santo homem, preocupado com as coisas divinas. Logo os dois sacristãos, comentariam; a gente até encomendava almas nos enterros quando o Padre estava almoçando!

Doutor Melo começou o seu discurso dizendo que no dia anterior havia acontecido uma coisa muito feia... suspensos por suspensos, interrompemos o seu discurso e mostramos a janela consertada. Ele olhou para a janela e continuou: “e como estava falando e como a coisa feia foi consertada...”. Ficamos livres de uma suspensão.

Assim eram os alunos do antigo Ginásio Estadual “Rocha Pombo”.



[1] - Depois de velho descobri que eu não fui exemplo como imaginava. Izaltino me denunciou. http://mergulhandonavirtualidade.blogspot.com.br/2013/11/carta-aberta.html

sábado, 9 de maio de 2015

Há 30 anos, em Morretes...

Odith Salomão foi minha colega durante uma parte, ou todo, do curso primário. Lembro-me claramente, talvez por estarmos entrando na adolescência. Fizemos o quinto ano juntos. Os alunos que faziam o quinto ano eram aqueles considerados os mais fracos, que não poderiam “dar no coro” no ginásio. O ginásio começou a funcionar. Colegas nossos do quarto ano, considerados os melhores alunos fizeram admissão para constituir a primeira turma. Eu, Odith, Valdinho, Aydée, Leonice e mais alguns que de momento não me lembro, não pudemos participar da primeira turma.

O ginásio não era público. Não sei qual fora a sua constituição legal, o que sei é que os alunos pagavam mensalidades. No final do quinto ano nos preparamos para o concurso de admissão. O primeiro colocado seria agraciado com uma bolsa de um ano, o segundo com seis meses e o terceiro com três meses. Carlota Freitas, uma guria muito estudiosa, séria... Morava com o irmão e tinha duas sobrinhas mais ou menos com a mesma idade dela, Eli e Eni. Se eu estiver enganado com os nomes peço que se eu tiver algum leitor do meu tempo faça a correção. A família mudou de Morretes e muitos corações adolescentes ficaram entristecidos.

Carlota e Odith não chegaram a completar o primeiro ano. Carlota porque se mudou para outra cidade e Odith para trabalhar. E eu não cheguei a pagar mensalidade, pois antes do terceiro mês o ginásio foi estadualizado.

Papai sugeriu que eu deveria aprender uma profissão. Conversou com Seu Marquinho De Bona para ser estagiário no escritório do Marquinho Malucelli. Darcy era o contador, auxiliado pelo Lídeo e pelo João Veloso. Os três eram de Antonina e o emprego em Morretes era para eles jogarem no Operário, um dos dois times de futebol de Morretes. E lá estava Odith. Era funcionária do escritório.

Marquinho De Bona era um homem de mil instrumentos. Era coletor federal, chefe do escritório do Marquinho Malucelli, presidente do Clube Sete de Setembro, agente de uma companhia de capitalização, era quem fazia os discursos em todas as solenidades e ainda correspondente de um jornal de Curitiba. Nesta época era correspondente do jornal O Dia.

Seu Marquinho terminava os seus discursos com a expressão “tenho dito” e este foi um título de um livro em que a sua filha Lígia publicou os seus discursos seguidos de um comentário para contextualizá-los.

A companhia de capitalização era a Bahia Capitalização. Odith cobrava a mensalidade dos títulos na cidade e eu fora da cidade. Foi numa destas cobranças, num dia muito quente, cheguei no engenho do seu Lori Alpendre fazer a cobrança. Ele me falou para tomar uma quira (garapa fermentada para ir ao alambique para ser destilada e sair a cachaça) enquanto ia buscar o dinheiro. Eu me excedi na quira e tome o meu primeiro porre, que conto num texto aqui no Blog.

Olga, a dona do prostíbulo da cidade, também tinha um título. Um dia eu saía da “zona” e encontrei tio João Fante (meu tio-nonno). Ele ficou assustado e queria saber o que eu estava fazendo “na Olga”. Eu expliquei a ele. Disse para ter cuidado e contou a história da Rosa –homem, do tempo que ele era moço.

A “zona“ da Olga ficava no começo da reta do Porto, uma reta que ligava a cidade com o seu distrito, o Porto de Cima. A reta do Porto era emblemática. Os mais velhos contavam da velinha que percorria os seis quilômetros da reta.

O meu pai era muito namorador, frequentador dos fandangos nos sítios. Chamávamos de fandango os bailes de sítio. Ele contava que uma noite voltava para a cidade, mais precisamente para o Central, viu uma luz se aproximando e a eguinha que ele montava começou a ficar agitada. Para não cair do cavalo e ficar a pé teve eu dar meia volta e fugir da vela.

Eu e Odith ajudávamos no clube Sete de Setembro quando tinha baile.

Com isto eu ganhava alguma coisa e Odith completava o seu salário. Ela era três meses mais nova do que eu. Com o advento das redes sociais eu encontrei Odith no Orkut. Conversávamos muito a respeito de Morretes “do nosso tempo”.

Encontrei um texto de um dos papos meus com Odith. Como se refere a Morretes de um bom tempo atrás.  Este texto é de 2006. Quando falo em “há uns 20 anos” o fato descrito aconteceu lá pelo ano de 86 do século passado.


Há uns 20 anos estava passeando por Morretes com um dos meus filhos que deveria ter, naquela época, por volta de 12 ou 13 anos. Chegamos até o Ginásio. Paramos na porta da frente e comecei mostrar as salas que estudara no tempo do grupo e depois do ginásio. Chegou uma moça, não tão moça, mas moça para nós, pois era de geração bem mais nova.

 Perguntou se eu desejava alguma coisa. Disse-lhe que estava mostrando para o meu filho onde eu estudara, que fora aluno da segunda turma do ginásio. Ela abriu um sorriso de galhofa e me convidou para entrar: venha cá, aqui tem duas velhinhas que talvez seja do seu tempo.

As duas “velhinhas” eram a Maria Joana Valério (contei para ela no nosso primeiro almoço, dos 50 anos da formatura do ginásio) e a Maria Leoni Biúdes. A moça que me levou às “velhinhas” era uma filha do Eguiberto Consentino.

Cada um de nós se lembra de um pedaço da história que todos nós participamos. Como a nossa memória é seletiva, mas por conta de dela que ao nosso comando, cada qual se lembra de um pedaço.



As aulas de desenho com mamãe, depois com Dona Desauda. As aulas de Canto Orfeônico com Dona Semíramis. O Pe. Camargo batendo com o dardo na cabeça dos alunos e brigando com o Dr. Luiz, o Juiz de Direito. Tudo isto são lembranças vivas.


Você se lembra, no escritório do Malucelli, que você era a encarregada daquela prensa e que, o mais rápido possível, passou para mim? O Darcy, o nosso segundo chefe, depois do seu Marquinho De Bonna. O João, com aquela caligrafia caprichada preenchendo os livros contábeis? Boas lembranças.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Patudo

Patudo era o xodó de tio Almir, irmão da minha mãe. Era um potro heterodoxo; bom de montaria, um trote macio, mas também era um cavalo de tração. Puxava uma zorra cheia de cachos de banana – claro que morro abaixo – e não negava tempo ruim na carroça. A sua parelha tinha que ouvir um estalo de chicote para não deixar o Patudo puxar sozinho a carroça.

Tio Almir era o meu padrinho de crisma. Era ele que me levava e trazia do sítio do meu avô. Algumas vezes de bicicleta, outras vezes de carroça, mas o bom mesmo era montado no Patudo.

Patudo e a bicicleta não eram comuns. A sela era das melhores, compradas nas melhores selarias de Curitiba. Os pelegos de coro de carneiro, coloridos, os arreios com enfeites prateados, o culote e as perneiras tornavam o centro de atração das gurias por onde ele passava.

Patudo me fazia sonhar com uma montaria, um belo pelego, um poncho e um chapéu de aba larga. Meu pai tinha culpa no cartório, principalmente quando falava de eguinha de nonno, campeã da raias e de trote macio quando puxava a charrete. Era ela que nonno colocava na charrete para levar mamãe para as suas aulas na escola e foi ela que trouxe Dona Margarida, a parteira, quando nasci. “Porco Dio, guardar o cavalo onde, no seu quarto?” foi a resposta que recebi. Mas ganhei uma bicicleta. Foi a minha montaria. Levei um susto quando ele me mostrou a bicicleta na carroceria do caminhão, ao chegar de Curitiba.

A heterodoxia de Patudo provocava algumas surpresas. Claro que os meus tios Almir e Rubico  (Rubens) já conheciam as manias dele, mas muitas vezes fugia do controle. “Chegou a carroça dos Serôas...” comentava-se quando chegavam na cidade, tantas foram as vezes que a carroça disparou pela cidade. Na verdade era Patudo que iniciava a disparada. Era a segunda maior distração em Morretes. A primeira era quando fugia bois na cidade.

Era um misto de alegria (movimentava a cidade) e pavor (dois cavalos em disparada e descontrolados, puxando uma carroça com aros de metal sobre os paralepípedos que recentemente haviam caçado as ruas de Morretes). A alegria era a movimentação, um "diferente comum", como era o caso dos bois que fugiam.

Até que um dia fui passageiro da carroça em disparada.

Meu avô e meus tios resolveram fazer carvão. O sítio, no Pitinga, era rico em matéria-prima e o dinheiro do carvão financiava a abertura das roças de banana.

O meu avô era engenhoso. Leu revistas, livros e não sei mais o quê, e descobriu projetos de forno de carvão. Naquele tempo não havia Internet e muito menos o Google. Nem TV. O primeiro rádio que chegou ao Pitinga foi montado por tio Almir, tarefa de um curso feito por correspondência pela National School. Muito chique! Era uma escola por correspondência na Califórnia, EUA. O curso era em português.

Como não havia luz no sítio, ele ia soldar em casa, na cidade. Mas a luz, fornecida pelo engenho da cachaça do Central era tão fraca que precisava ser auxiliada por um lampião. Não esquentava o ferro. Meu pai arrumou um maçarico e um ferro de solda pequeno que era utilizado para soldar radiador de carro.

Com a orientação de papai, vovô montou um dínamo (como se chamavam os alternadores dos carros) para carregar a bateria para alimentar o rádio. Toda esta peripécia permitia que a minha avó e o meu avô acompanhassem as aventuras e desventuras de Albetinho Limonta, Mãe Dolores, etc., da novela O Direito de Nascer pela rádio Nacional do Rio de Janeiro.

Bem, depois de estudar projetos de fornos de carvão, vovô desenhou o seu e chamou Zebedeu,  o Bedeu, casado com Maria da Luz. Bedeu era lavrador, pedreiro e carpinteiro. Construía casas de madeira e de tijolos.

O forno era redondo e tinha uns 15 metros de diâmetro. Uma fornada fornecia cerca de 100 sacas de carvão que demorava uns 15 dias para ficar pronto. Era um carvão muito bom e havia uma boa freguesia. Seu Lourencinho, dono de uma ferraria, era um deles.

Meus tios não gostavam que eu andasse com eles quando traziam carvão porque a poeira sujava muito. Para se ter uma ideia, em 1942 o meu pai foi buscar dois caminhões no Rio de Janeiro. Era época da guerra e a gasolina era racionada e os carros eram movidos a gasogênio. A viagem Morretes - Rio de Janeiro – Morretes demorou uns três meses. Ele contava que na volta hospedou-se num hotel em São Paulo. Tomou um banho e saiu com o outro motorista para fazer uma refeição. Ao retornar o porteiro não queria dar as chaves dos quartos, pois ali estavam hospedados “dois senhores de cor”. Não, eram eles antes de tomar banho.

Num certo dia eu fui com eles no seu Lourencinho, avô de Valdinho, meu amigo de infância. Era hora do almoço. Após entregar o carvão subi na carroça com os meus tios e fomos em direção de casa para almoçar. Patudo assustou-se com alguma coisa  - certa vez disseram-me aos meus tios que ele poderia ser vidente e fora assustado por algum espírito – e começou  a correr.

Na pracinha do paredão virou à esquerda, passou defronte a telefônica e na esquina da Farmácia do Roberto França entrou na rua XV quase em duas rodas. Os dois cavalos bem ferrados e o aro de metal das rodas da carroça faziam um estardalhaço nos paralepípedos da rua XV. Tio Almir, agarrado nas rédeas gritando Óóóóóó, pára Patudo!!!... E Patudo mais corria. E o pessoal nas calçadas gritava “cuidado que é a carroça do Serôas que voltou a disparar!” Seguiu toda a rua XV. Na esquina do Seu Salomão  viu à direita e na esquina seguinte, defronte a casa do Bôrtolo virou à direita e pegou a rua da Prefeitura, virou na rua das Oficinas, voltou a entrar na rua XV,  passou pela pracinha do paredão e novamente pela ferraria do seu Lourencinho, costeou o rio, entrou na rua do hotel, defronte à Igreja Matriz, passou por trás do grupo, pela rua do Centro Espírita e os cavalos já estavam suando. Tio Almir rouco de tanto gritar e tio Rubico ficou no meio do caminho. E a cidade em polvorosa. Fazia tempo que não fugia boi na descarga do vagão de gado no início da reta do Porto.

O espetáculo era como a correria das velhas diligências e carroções dos seriados do Velho Oeste, que passavam no cinema do Nhozinho.

Minha mãe viu tio Rubico, todo sujo de carvão, perguntou por mim.

- Está com o Mimo (apelido de tio Almir) na carroça!
- Ele está bem, não está machucado?
- Não sei, acho que não. Nem sei onde estão...

Quando a carroça começou a correr eu caí no assoalho dela, misturado com o resto de carvão, e não conseguia levantar com os saltos que a carroça dava. Quando os cavalos acalmaram pude sentar no banco, ao lado de tio Almir e voltar para casa.

Além da sujeira pedi um pé da “loirinha” (uma sandália de sola de pneu, lançada por Aramis Zanardi e difundida pelo Ewaldo Zilli). E por uma semana saía carvão dos meus ouvidos e das minhas narinas.


sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Recordações sem começo, meio e fim

Tio Jango sempre falou muito alto. Quando eu e Carlito viajávamos com o caminhão de papai íamos para Londrina via Palmeira, ao invés de irmos pela Estrada do Cerne. Passávamos pela fábrica cumprimentar tio Chico e os primos. Algumas vezes escutávamos tio Jango falar, até da sua casa, a primeira casa. Elói brincava: “Jango está cochichando!”. Se ele cochichava com altos decibéis, imaginem falando alto.

Nonno gerenciava o engenho do Central e tio Jango assumiu este trabalho após o falecimento de Nonno. E lá havia uma locomove que fornecia luz para Morretes. A luz era tão fraca que muitas vezes era preciso acender um palito de fósforo para ver se a lâmpada estava acesa.

A locomove era uma caldeira que girava uma polia que fazia girar o gerador de eletricidade. Era barulhenta e tio Jango todas as noites ia jogar “três sete”, ou “21”, com o guardião do engenho que também cuidava do bom funcionamento da locomove. Precisavam conversar aos gritos. Esse era o motivo, diziam os irmãos, de ele falar tão alto.

O “três sete” era o jogo preferido dos amigos no Central. Tio Juca mantinha um consultório em Morretes, onde atendia nas segundas e terças feiras. “Descia” pelo domingo pela manhã pelo expresso ia para nossa casa para almoçar e em seguida, com papai, iam para o Central. Lá se reuniam com tio Jango, tio Tonico que de inicio morava num dos sobrados, ao lado do sobrado em que morava tia Maria Sotta Malucelli, irmão de Nonna (mais tarde ele construiu a casa na reta do Porto de Cima). Também eram parceiros os irmãos Tonico e Jango Valério. O outro parceiro certo era o Sebastião Malucelli, filho de tia Maria. Depois de Sebastião construir uma casa e se mudar para a Vila Santo Antonio, Giocondo Malucelli, filho de tia Felícia e tio Joanim, passou a ocupar a casa e assumiu a vaga deixada pelo Sebastião.

Havia um paiol ao lado da casa. E era onde estava a oficina de selaria de tio Jango. Dos filhos de tio Jango, pelo que eu me lembro, foi Beto que herdou a habilidade de seleiro. De fazer peças de arreio e também, de consertar. Enquanto Carlito passou a se interessar por caminhões, Beto ase interessava por carroças. Lembro-me da sua carroça de quatro animais, dois cavalos na frente e dois burros atrás. O bom carroceiro tinha que ter um bom chicote para estalar sobre os cavalos, que obedeciam aos estalos...  e sem acertar nos cavalos. No final do chicote, de couro, havia um pedaço de corda para dar o tom do estalo. Como morávamos no início da estrada do Central, sabíamos quando o Beto passava por lá.

Relembrando os estalos dos chicotes, quando trabalhei com o caminhão de papai fiz um apito e coloquei na saída de ar do freio. Deu trabalho em acertar, com um lima, um silvo que “fosse o meu”. Os primeiros motoristas, da geração anterior à minha, antes foram carroceiros.

Enquanto os homens jogavam “três sete” as mulheres se reuniam na estrebaria. Nonna era uma verdadeira mamma. As suas noras eram como se fossem filhas e os seus netos como se fossem filhos. Quando a minha mãe adoeceu, nonna assumiu a casa e “nos assumiu”. A estrebaria e o galinheiro da casa de tio Jango eram, na verdade, de nonna. Também “era dela”, o galinheiro que ela fez papai construir em casa. Todas as manhãs ela ia ao galinheiro (ou quando chegava em casa) fazer um “fio terra” nas galinhas para ver se tinha ovo. Se tivesse era separada para não chocar, ou para chocar, se houvesse interesse.

A estrebaria ia além do local de acolher as vacas para “tirar leite”. Era onde estava o tacho que era usado para fazer sabão. A potassa era guardada numas tábuas próximas ao telheiro. Certa vez a potassa caiu sobre a cabeça de  Lolinha, esposa de Giocondo. Ela, recém chegada da cidade, ao invés de tirar a potassa “ao seco”, lavou a cabeça. A reação da potassa com a água queimou o coro cabeludo e a sua recuperação e volta dos cabelos foi muito demorada.

Nonna era um tanto estouvada. Era canhota. O canhoto tende a ser “estouvado” porque vive um mundo destro. Trombava com pés de cama e de mesa, tropeçava e isto a deixava um pouco “desligada”. O Padre de Morretes rezava a “missa das almas” às quatro da manhã das segundas feiras. Nonna era frequente nesta missa. Costumava vir para casa no domingo a tarde, mas algumas vezes saída do Central por volta das três da manhã para assistir a missa. Certa vez ela encontrou um homem quando passava pelo cemitério e vieram conversando até na entrada da cidade. Na volta da missa comentou intrigada e zangada da falta de educação do homem que sumiu no meio da conversa sem se despedir. Minhas irmãs ficaram arrepiadas, pois achavam que o homem era um fantasma de algum morto do cemitério.

A missa das almas era comum e frequentava geralmente por mulheres de meia idade para cima. Na Igreja do Bom Jesus, em Curitiba. Tia Angelita acordava-me de madrugada para acompanhá-la à missa. Numa das vezes a Igreja estava fechada e no portão havia uma placa informando que a missa, naquele dia, seria rezada na capela do Colégio São José, do outro lado da Praça. A pessoa que nos recebeu apontou para o final do corredor e disse: a capela fica no final da aquela escada. Só que a capela fica no penúltimo lance da escada; no último lance era o dormitório de um pensionato de moças. As moças, naquele tempo eram muito pudicas e ainda bem que eu estava atrás da minha tia.


Propositalmente deixei este texto sem começo, meio e fim; as recordações são aleatórias e sem começo, meio e fim. Como é a nossa memória.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Festa dos padroeiros das capelas e a banda Euterpina

Eric Hunzicker, o historiador de Morretes, publicou uma descrição da festa de São Pedro, que me transportou aos meus tempos de coroinhas no tempo do Padre Camargo.

Eu e Valdinho Colodel éramos os coroinhas (sacristão, como então éramos chamados) do Padre Camargo. Tínhamos, então, por volta de 13 ou 14 anos. Éramos excelentes profissionais (desculpem-me a imodéstia) e isto nos garantia privilégios que tínhamos nas aulas de latim no ginásio, ministradas pelo Padre.

Nas festas de São Pedro, como em outras capelas, o Padre ia de charrete, conduzida por Valdinho. Claro, neto de seu Lourencinho, ferreiro antigo de Morretes, exímio colocador de ferraduras nos cavalos da cidade.

Numa festa no Rio Sagrado, Jairo, sobrinho de dona Sebastiana insistiu em ir junto. Dona Sebastiana tomava conta do posto Telefônico e Jairo era o seu estafeta; corria a cidade para chamar as pessoas para atender telefonemas no posto, na pracinha do paredão (estou usando a toponímia da época). Vivia cansado.

O Padre era madrugador. Saíamos ainda escuro, pois rezava uma missa às sete e antes da missa havia um opíparo café na casa do festeiro e/ou capelão. O almoço era um banquete, dentro das possibilidades locais. Padre Camargo sentia-se o lídimo representante de Deus em Morretes. Bem diferente do Padre Saviniano que o antecedeu, a expressão da modéstia.

A prima Sirley Malucelli, sobrinha da Beta Grossi, costureira de mancheia e pesquisadora da vida alheia local[1], resolveu fazer um chapéu novo para o Padre Saveniano para usar numa reunião em que como pareceriam padres de Curitiba, Paranaguá, Antonina e outras cidades próximas. Como era costume na época, os padres iam chegando e colocando os seus chapéus na chapeleira. E lá estava o chapéu novinho em folha, presente da Beta. No término do encontro, cada padre pegou o seu chapéu e retornou para a sua paróquia e um deles com um chapéu novinho em folha. E lá ficou um chapéu em pior estado daquele que Beta substituiu.

Voltando à festa do Rio Sagrado. Saímos pouco antes das quatro da manhã. Escuro. O Padre e Valdinho (o condutor) na charrete, eu e Jairo de bicicleta. Quando estávamos no alto do Morro Comprido senti falta de Jairo. Avisei o Padre e voltei. Saindo de Morretes, havia uma subida, uma descida e em seguida a subida maior. Embalávamos a bicicleta na primeira descida para subir com folga na subida maior.  Jairo dormiu na descida e caiu num jasminzal. Acordou sem saber onde estava sem apoio para se levantar, eu o descobri pelos seus pedidos de socorro.

Dona Helena Cit Cordeiro lembrou-se da “Banda dos Coroas”, paixão de Ewaldo Zilli, que hoje nos observa do outro lado. No meu tempo de guri em Morretes o nome da banda era Euterpina, uma homenagem a Euterpe.

Segundo o “Santo Google”, Euterpe, a Doadora de Prazeres do grego eu (bom, bem) e τέρπ-εω ('dar' prazer), foi uma das nove musas da mitologia grega, as filhas de Zeus e Mnemósine, filha de Oceano e Tétis.
Era a musa da Música. No final do período clássico, foi nomeada a musa da poesia lírica e usava uma flauta. Alguns consideram que tenha inventado a aulos ou flauta-dupla, mas a maioria dos mitólogos dá crédito a Marsyas.




[1] Eu já contei aqui de quando Beta ficou presa na porta do cemitério. Já estava escuro, quando ela pedia socorro as pessoas fugiam pensando que fosse alguma alma penada querendo sair fora dos muros do campo-santo.

sábado, 6 de setembro de 2014

A saga do paciente

Na sexta feira após o carnaval de 2009 o meu coração deu um susto. Fui ao hospital, colocaram-me numa cadeira de rodas e me levaram direto para o setor de emergência. Colocaram vários eletrodos no meu corpo, a cada meia hora vinha uma moça com um carrinho e fazia um eletrocardiograma. Não tinha nem botões para perguntar a eles se eu emplacaria o sábado. Três ou quatro médicos não saíam do lado da cama. Preocupante! No final disseram que seria bom que eu fosse à UTI. “O senhor aceita?”. E se não aceitar? “Ah, não nos responsabilizamos”. Então tudo bem. Vamos lá. Minha filha, como não podia ser diferente não teve nem tempo para ficar apavorada, correndo com a burocracia junto ao convênio para autorizar a internação. Mas os seus olhos demonstravam a sua preocupação.

Deixaram-me durante o sábado e domingo na UTI. No sábado à noite falei para a atendente que eu queria tomar um banho. Ela se ofereceu a me lavar. Não aceitei. Queria um chuveiro. Perguntou se eu aguentaria. Se eu não aguentar você me traz de volta, sugeri.

Trouxe uma privadinha de rodas, fez-me sentar e me empurrou até o banheiro. Todos os internados ficam com uma peça de roupa que chamam de camisola que tampa a frente e deixa a bunda de fora. O local em que fiquei era de passagem e cansei de ver passagens de bundas naquela privadinha de rodas. Até que chegou a minha vez. Lá fui eu.

A moça era muito bacana, responsável. Abriu o chuveiro, esperou a temperatura certa, colocou uma toalha no chão e avisou que podia tomar o banho. Afastou-se um pouco e ficou de braços cruzados próximo à porta. Fechada.

Você vai ficar aí? O senhor está com vergonha? Bem, não é propriamente  vergonha, mas nunca tomei banho com audiência. Eu posso sair, e se o senhor cair? Tudo bem, então pode ficar aí.

Eu banho gostoso! Deve ter ajudado para sair da UTI. Mas ainda fiquei monitorado por mais vinte e quatro horas por aparelhos.

Na segunda feira fiz alguns exames e na terça fui fazer um cateterismo. É impressionante. Colocam a criatura numa maca mais estreita que o corpo. Sem lugar para colocar os braços. A máquina fica presa no teto por gigantescos parafusos. Se a máquina se soltar amassa o paciente. E eu pude entender o sentido da palavra paciente.

Começaram os preparativos. Até que senti uma coisa fria na virilha direita. Perguntei para a enfermeira o que era aquilo. Ela me falou que era tricotomia. Ela deve ter se assustado com a minha interrogação, pois foi um susto danado.

Há uma discussão teológica desde os primeiros séculos da era cristão a respeito da unicidade do homem, ou se ele era dividido em partes: corpo, alma e espírito. Os guarani têm um entendimento semelhante que costumamos nos referir à duplicidade da alma. Ñé é, que corresponde ao que chamamos de alma, é o angüery, um espírito nos moldes que chamamos visagem. Ñé é vem de um lugar semelhante ao que chamamos de céu e se manifesta quando a criança começa a entender o mundo que a rodeia. Quando a pessoa morre ela retorna de onde veio, uma espécie de  terra sem males. E o espírito ou anguery, fica zanzando por aí, por vezes “atentando” as pessoas, outras vezes ajudando.

A isto os teólogos chamam de tricotomia. Mais recentemente surgiram interpretações teológicas da dicotomia, corpo e alma.

Depois do meu susto ela me explicou que tricotomia (na medicina) significava depilar. Eu não sabia que deste a metade da adolescência praticava tricotomia no rosto, quase que diariamente.

Refeito do susto, a enfermeira “me preparou” e no final chamou o médico. E ele começou a fazer o cateterismo. Até que ele avisou: descobri o seu problema: uma obstrução de 80% numa artéria do coração. E daí, perguntei, o que é que significa isto? Tem que colocar um stent para abrir a artéria. Quer fazer isto agora ou outro dia? E tem que operar? Perguntei. Já fiz a primeira parte da operação. Ah, então faz isto já. E mandou esperar.

Foi procurar a minha mulher explicou tudo para ela e talvez alguma coisa a mais, pois ela estava apavorada. Vi depois. Ela teve que assinar uma papelada e a colocou frente a um vídeo para acompanhar o procedimento.

No final me tiraram daquela maca e me colocaram numa outra, a que vim do quarto. Deixaram-me numa sala de recuperação e recomendaram que eu não deveria me mexer nas próximas seis horas.

Seis horas depois chegou a enfermeira trocar a bandagem. Enquanto ela fazia o seu trabalho falou “empurre isto para lá”. Eu não entendia, pois não sabia o que era “isto”. Depois de ela muito repetir entendi que era o saco.

É melhor “isto” do que escroto. Palavrinha feia!

sábado, 23 de agosto de 2014

Morretes, os sinos e os sineiros (*)

Cada vez que chego a Morretes, sinto nos meus ouvidos os sons dos sinos da matriz: quando tristes, entristeciam os morretenses; quando alegres, alegrava a todos.  Cada “música”, isto é, cada batida, identificava uma atividade religiosa, mas também havia uma batida para a comunidade.
Sou de uma geração que nasceu e se criou ouvindo os sinos da Igreja Matriz. Eu fui um dos sineiros da Igreja.
Na torre da Matriz havia quatro sinos, numerados do menor ao maior, em primeiro, segundo, terceiro e quarto. Cada sineiro se especializava num deles. Os primeiro e segundo sinos eram os “de repique” e eram tocados por um só sineiro e dava o ritmo e o quarto fazia um acompanhamento, surdo, e era o responsável pelas e emoções. Pelas tristezas e pelas alegrias. O terceiro intermediava o “diálogo” dos sinos menores com o “solo” do quarto. Neste momento a cidade ficava alerta: alguém havia falecido. Quem? Logo a notícia se espalhava. E assim as batidas anunciavam um acontecimento, uma atividade. Era a forma de como as informações chegavam aos moradores de uma cidade com cerca de cinco mil habitantes.

Quem eram os sineiros? Eram meninos no início da sua adolescência. Coroinhas. Sacristãos, como eram chamados.  Mas não eram todos que ficavam com a chave da porta da torre, como não era qualquer um que “tocava sino”. Para tal, teria que ter a autorização do responsável, alguém de confiança do padre. Ou do capelão, caso do Roberto França, na igreja de São Benedito.

Os mais experientes treinavam os novos. Os antigos, já adultos, eram citados como exemplo pelos “instrutores” aos aprendizes. Os mais citados, na época, eram Osman de Oliveira e Airton Onoles. Havia o Ari Bicudo e alguns que no momento não lembro outros nomes, mas sempre havia uma dupla ou um trio. A dupla que mais se destacava era a “especializada” nos dois sinos menores e no maior. Por muito tempo eu fiz parceria com Valdinho Colodel. Ele nos dois menores e eu no quarto sino. 

Osman e Airton, até onde alcança a minha memória, foram os últimos coroinhas (sacristãos) do Pe. Saveniano. Eu e Valdinho fomos do primeiro grupo de coroinhas do Pe. Camargo. 

Relembrando, a partir de hoje, o Pe. Camargo fez  tudo para apagar da memória as lembranças do seu antecessor.  

Os coroinhas tinham outras responsabilidades na Igreja e por isto eram os que mais se destacavam como sineiros. Não sei nas gerações passadas, mas o padre nos remunerava. Também éramos sineiros da Igreja de São Benedito, que tinha como capelão o Sr. Roberto França.

Muitas vezes a dupla estava livre para bater sino. Quando somente um batia o sino, repicava os sinos menores com as mãos e o maior com a corda do badalo amarrada num dos pés.

A sonoridade antiga que sinto nos ouvidos contrastava com a batida monocórdica atual. Numa das minhas visitas a Morretes convidei Valdinho para transmitirmos o nosso conhecimento para os meninos e meninas atuais. Não foi possível porque, segundo lhe informaram, havia mais de um sono rachado. Deitado de costa no chão da torre, é claro.

Faço um convite aos morretenses para arrecadar fundos para recuperar os sinos; eles são da comunidade. Não sei se este convite ainda tem significado sete anos depois que publiquei este texto.


(*) – Publicado, originalmente, em Morretes NotíciasEdição nº 2, janeiro de 2007.

Lampejos de memória

Lampejo, diz o dicionário, é uma manifestação rápida e/ou brilhante duma ideia; (..) um clarão ou brilho repentino; (uma) faísca, fagulha, centelha, chispa”. Lampejo de memória é aquela lembrança rápida, clara como uma centelha, rápida como uma faísca. Eu tenho estes lampejos de memória de nonno.
 
Eu tinha três anos, nove meses e cinco dias quando nonno faleceu. Muito pequeno para me lembrar dele, mas estes lampejos são desta idade para menos. Para que estas lembranças ficassem marcadas nonno deve ter sido muito importante para mim.
 
Ele e nonna cederam o quarto deles para os meus pais morarem lá na época da gravidez de minha mãe; ali nasceria o primeiro filho do filho caçula. Nonno levava a minha mãe para cidade para lecionar e voltava buscá-la. Estes foram os meus primeiros momentos de vida ao lado dos meus avós paternos.
 
Há um lampejo, acho que o de menor idade, em que eu estava na charrete (ou “aranha” – uma charrete com rodas de madeira e aro de ferro), sentado entre nonno e a minha mãe, saindo da estradinha do engenho do Central, entrando na estrada principal, que nos levaria à cidade. O cavalo assustou-se por alguma coisa, saiu da estrada. Minha mãe gritou e ele disse: “Não se assuste, Dulce. Não foi nada”. Corte! Um corte que veio até hoje.
 
Num outro lampejo eu entrava na sala de jantar e nonno estava sentado numa mesa redonda, pequena para a sala, com uma pequena tigela com vinho; ele picava pão e mergulhava no vinho. Não sei se foi ele que falou que havia vinho na tigela. Bem mais tarde, já adulto, falando a respeito com o meu pai, ele me falou deste hábito de nonno, de fazer sopa de pão com vinho numa pequena tigela.

 Um dos lampejos aconteceu na casa construída pelo meu pai e que existe até hoje. Nonno já demonstrava estar doente. Eu estava sentado na escada da entrada da varanda, chegaram ele e nonna que iam da cidade para o Central. Pararam defronte de casa. Demonstrando fraqueza, Nonno desceu da charrete, mas não se atreveu subir os degraus da varanda. Ficou conversando comigo apoiado na sua bengala. O lampejo termina antes de nonna sair para retornarem ao Central.
 
Num outro lampejo eu me vejo no quarto dele, doente e de cama. Uma visão rápida.

 Numa manhã, o meu primo Carlito, filho do tio Jango, chegou em casa. Ele deveria ter uns 10 ou 11 anos. Falou alguma coisa e meu pai se apressou em se arrumar e me arrumar. Pegou a ramona (Chevrolet Ramona de 1927), um caminhãozinho com cabine de madeira e sem portas. Sentou-me no banco e falou para que Carlito ficasse no para-lama, fechando a entrada da cabine. Não me lembro se a minha mãe já havia ido ou foi depois.
 
Havia movimento na frente da casa e um ataúde no centro da sala da frente. Colocaram-me no colo, acho para o ver o nonno pela última vez, mas eu não me lembro de o ter visto. Vi algo que não parecia ser ele. Há um pequeno corte e me vejo sendo colocado no colo de alguém na janela. Dali pude ver o féretro na estrada, ao longe. Houve uma sensação, não sei se daquele momento, ou uma sensação que cresceu com a idade, de algo que perdia; de uma última visão. É uma lembrança acompanhada de um nó na garganta e de os olhos quererem marejar.